“Bem-aventurados,
Senhor, os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão” (Sl
83, 5)
I. Na terra, a maior pena das almas que
amam a Deus e se acham em desolação, é o receio de não O amarem e de não serem
por Ele amados:“ O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio”. Mas no
paraíso a alma está certa de que ama a Deus, e de que é amada por Ele; vê que
está felizmente abismada no amor do seu Senhor e que o Senhor a abraça como
querida filha; vê, enfim, que os laços de seu amor são para sempre
indissolúveis. – Estas venturosas chamas desenvolver-se-ão mais ainda pelo
conhecimento mais perfeito, que então adquirirá, do amor que levou Deus a
fazer-se homem e a morrer por nós, do amor que o levou a instituir o Santíssimo
Sacramento, no qual um Deus se faz alimento de um verme.
Demais; verá
distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas
tentações e perigos de condenação. Compreenderá que essas tribulações, doenças,
perseguições, revezes, que chamara desgraças e castigos de Deus, foram, ao
contrário, manifestações de amor e lances da divina Providência para a levar ao
céu. – Verá especialmente a paciência que Deus teve em aturá-la depois de
tantos pecados, e as suas misericórdias em enviar-lhe tantas luzes e tantos
convites cheios de amor. Do alto desta feliz montanha, verá tantas almas
condenadas ao inferno por menos pecados, e a si mesma se verá salva, na posse
de Deus, certa de nunca perder no futuro esse bem supremo durante toda a
eternidade.
Sempre,
portanto, gozará o bem-aventurado dessa beatitude, que durante toda a
eternidade e a cada instante lhe parecerá nova, como se então pela primeira vez
entrasse a gozá-la. Sempre desejará a sua felicidade e obtê-la-á sempre: sempre
satisfeita e sempre desejosa, sempre ávida e sempre saciada. Numa palavra,
assim como os réprobos são vasos cheios de ira, assim os escolhidos são vasos
cheios de contentamento, de modo que nunca tem coisa alguma a desejar. A alma, vendo a descoberto e abraçando com
transporte o seu soberano Bem, embriagar-se-á de tal sorte de amor, que se
perderá felizmente em Deus, isto é, esquecer-se-á completamente de si, e não
pensará desde então senão em amar, louvar e abençoar esse bem infinito, que
possui.
II. Quando nos oprimirem as cruzes da
vida, animemo-nos a suportá-las com paciência, com a esperança do céu. O abade
Zosimo perguntou a Santa Maria Egypciaca, como aguentara viver tantos anos no
deserto; ao que a Santa respondeu: Pela esperança do céu. Quando a São Filipe
Neri foi oferecida a dignidade cardinalícia, a recusou atirando o barrete ao ar
e exclamando: Ó paraíso, ó paraíso!
Assim também
nós, quando gemermos ao peso das misérias deste mundo, levantemos os olhos ao
céu e consolemo-nos, dizendo: Ó paraíso, ó paraíso! Lembremo-nos de que, se
formos fiéis a Deus, acabarão um dia todas as nossas penas, misérias e temores
e seremos admitidos nessa feliz pátria, na qual estaremos plenamente felizes,
enquanto Deus for Deus. Já nos esperam os santos, espera-nos Maria, e Jesus já
tem na mão a coroa para nos coroar reis no seu reino eterno.
Meu querido
Salvador, ensinastes-me a rogar: “Venha a nós o vosso reino”. Tal é
a oração que Vos dirijo; estabeleça-se vosso reino em minha alma, de maneira
que a possuais toda e ela também Vos possua a Vós, que sois o supremo Bem. Ó
meu Jesus, nada poupastes para me salvar e para ganhar o meu amor; salvai-me,
pois, e consista a minha salvação em Vos amar incessantemente nesta vida e na
outra. Tantas vezes Vos tenho ofendido, e não obstante isto, me afiançais que
não Vos dedignareis de me conservar unido convosco durante toda a eternidade,
se eu me quiser arrepender. Sim, arrependo-me, e quisera morrer de dor. De hoje
em diante só quero pensar em Vos ser agradável. Aceito e abraço todas as
mortificações e penas que me quiserdes enviar. Basta-me que não me priveis da
vossa graça; basta que um dia possa eu ir amar-Vos, louvar-Vos e bendizer-vos
no paraíso. – Ó Maria, quando é que me verei aos vossos pés, seguro de não mais
poder perder o meu Deus? Socorrei-me, minha Mãe e não consintais que me condene
e tenha de viver para sempre apartado de Vós e do vosso divino Filho.
(Santo
Afonso Maria de Ligório)
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