terça-feira, 10 de março de 2026

Hoje iniciamos a Novena de São José




NOVENA DE SÃO JOSÉ

Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo...

Oração preparatória

Onipotente Deus e Senhor meu, que com misteriosa providência ordenais todas as coisas deste mundo para maior glória vossa e honra de vossos santos: já que fostes servido singularizar com prerrogativas tão excelentes o glorioso patriarca S. José, concedendo-lhe, entre outras muitas, a grande felicidade de expirar nos vossos braços, recebendo as suavíssimas consolações da vossa presença e da de vossa Mãe santíssima; por aquele grande amor, que nesta ocasião lhe mostrastes, e pela fineza que nesta ação lhe fizestes, vos peço humildemente aviveis a minha devoção e me concedais que acompanhe e imite nela os seus maiores devotos, para vossa maior glória e honra do mesmo santo.  E vós, glorioso S. José, pelos sete gozos e pelas graças que na hora do vosso passamento recebestes de vossa castíssima Esposa e de seu divino Filho, assisti-me especialmente na hora da minha morte, para que vá gozar em vossa companhia da eterna bem aventurança. Amém.

Santo Terço  // Salve Rainha

Jaculatórias. – Amados Jesus, José e Maria, dou-vos o meu coração e a minha alma.

Amados Jesus, José e Maria, assisti-me na última agonia.

Amados Jesus, José e Maria, fazei que minha alma expire em paz na vossa companhia.

P. N. ; A.M. ; Gl. P. (1)

LADAINHA DE SÃO JOSÉ

Senhor, tende piedade de nós.
Jesus Cristo, tende piedade de nós.
Senhor, tende piedade de nós.

Jesus Cristo, ouvi-nos.
Jesus Cristo, atendei-nos.

Deus, Pai dos Céus, tende piedade de nós.
Deus Filho, Redentor do mundo, tende piedade de nós.
Deus Espírito Santo, tende piedade de nós.
Santíssima Trindade, que sois um só Deus, tende piedade de nós.

Santa Maria, rogai por nós.
São José, rogai por nós.
Ilustre filho de Davi, rogai por nós.
Luz dos Patriarcas, rogai por nós.
Esposo da Mãe de Deus, rogai por nós.
Casto guarda da Virgem, rogai por nós.
Sustentador do Filho de Deus, rogai por nós.
Zeloso defensor de Jesus Cristo, rogai por nós.
Chefe da Sagrada Família, rogai por nós.
José justíssimo, rogai por nós.
José castíssimo, rogai por nós.
José prudentíssimo, rogai por nós.
José fortíssimo, rogai por nós.
José obedientíssimo, rogai por nós.
José fidelíssimo, rogai por nós.
Espelho de paciência, rogai por nós.
Amante da pobreza, rogai por nós.
Modelo dos trabalhadores, rogai por nós.
Honra da vida de família, rogai por nós.
Guarda das virgens, rogai por nós.
Sustentáculo das famílias, rogai por nós.
Alívio dos miseráveis, rogai por nós.
Esperança dos doentes, rogai por nós.
Patrono dos moribundos, rogai por nós.
Terror dos demônios, rogai por nós.
Protetor da Santa Igreja, rogai por nós.

Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, perdoai-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, ouvi-nos, Senhor.
Cordeiro de Deus que tirais os pecados do mundo, tende piedade de nós.

V. Constituiu-o senhor de sua casa:

R. E príncipe de toda a sua possessão.

 

Oremos

Ó Deus, que por uma inefável providência vos dignastes de eleger o bem-aventurado José para esposo de vossa Mãe santíssima: concedei-nos, vos pedimos, que aquele que veneramos como protetor na terra, mereçamos tê-lo como intercessor nos Céus. Vós que viveis e reinais por todos os séculos dos séculos.  R. Amém.

 

CONSAGRAÇÃO A SÃO JOSÉ

Ó glorioso Patriarca S. José, que por Deus fostes estabelecido para cabeça e guarda da mais santa entre as famílias, dignai-vos lá do Céu ser também cabeça e guarda desta, que aqui está prostrada diante de vós e pede a recebais sob o manto do vosso patrocínio. Nós desde este momento vos escolhemos para Pai, protetor, conselheiro, guia e padroeiro e pomos debaixo da vossa guarda especial a nossa alma, corpo e bens, quanto temos e somos, a vida e a morte.

Olhai-nos como vossos filhos e coisa vossa. Defendei-nos de todos os perigos, de todos os ardis e de todos os enganos de nossos inimigos visíveis e invisíveis. Assisti-nos em todos os tempos, em todas as necessidades, consolai-nos em todas as amarguras da vida, mas em especial na agonia da morte. Dizei em nosso favor uma palavra àquele amável Redentor que em Menino trouxestes em vossos braços, àquela Virgem gloriosa de quem fostes amantíssimo Esposo. Ó! alcançai-nos deles aquelas bênçãos que conheceis serem proveitosas ao nosso verdadeiro bem e eterna salvação. Numa palavra, ponde esta (Família ou Congregação) no número das que amais e ela procurará por meio de uma vida verdadeiramente cristã não se tomar indigna de vosso especial patrocínio. Assim seja.


domingo, 1 de março de 2026

Vida e Vantagens da Congregação Mariana

A vida de uma Congregação Mariana tem duplo aspecto: um interno, outro externo. O primeiro abrange os atos de piedade com que a Congregação desperta, fomenta, radica e desenvolve nos Congregados o espírito da perfeição cristã. O segundo compreende as obras externas de zelo, por meio das quais a Congregação influi eficazmente no melhoramento social.

Um e outro aspecto, ou uma e outra vida da Congregação fluem naturalmente do fim a esta assinado nas Regras: fomentar nos seus membros a mais ardente devoção, reverência e amor filial à Santíssima Virgem; e, por meio desta devoção e pelo patrocínio de tão boa Mãe, fazer dos Congregados cristãos verdadeiros, que tratem sinceramente da própria santificação, e trabalhem com afinco em salvar e santificar os próximos e defender a Igreja de Cristo contra os ataques dos inimigos dela.

O ideal, pois, da Congregação Mariana é formar apóstolos; e a vida do bom Congregado, como a vida da Congregação, deve ser um apostolado contínuo.

Vida Interna

É fervorosa a vida interna da Congregação, quando nela se celebram com assiduidade:

Os exercícios de piedade próprios

1. As reuniões ordinárias e extraordinárias;

2. A Comunhão Geral;

3. O tesouro espiritual;

4. O Recolhimento Mensal;

5. Os Exercícios Espirituais de Santo Inácio;

6. A festa solene dos padroeiros, com a devida preparação e esplendor;

7. A devoção ao santo do mês e as intenções mensais;

8. A recitação em comum das orações tradicionais, como o Ofício de Nossa Senhora, a Hora Santa, a Via Sacra, o Rosário, etc

9. A participação nas seções e academias

Os Atos de Governo

1. Admissão de Aspirantes, Noviços e Congregados

2. Assembléia Geral com ou sem eleição dos oficiais

3. Consultas Ordinárias e Extraordinárias

Se a isto se acrescenta, por parte de cada um o desempenho fiel e consciencioso dos deveres próprios e do cargo, é quase impossível não se revelar na Congregação uma vitalidade abençoada, que Deus e a Virgem Santíssima coroam sempre de frutos salutares.

Seções e Academias

Uma parte importante da vida interna da Congregação está nas Seções e Academias. São verdadeiras escolas de formação, que cultivam a inteligência e o espírito, formam e apuram o gosto e orientam o critério de cada um, quer em matérias religiosas, quer em assuntos profanos. Quando bem assentes em piedade e bem dirigidas, são, na Congregação, o melhor apostolado. Formam-se seções com os Congregados que se destinam aos estudos de cada ramo, ou têm gosto por eles. Determinam-se os trabalhos quinzenais ou

mensais e fixa-se, para cada grupo ou seção, o dia da reunião. Nesta, lê ou expõe o seu trabalho quem foi encarregado ou discute-se depois em comum. Os assuntos devem ser bem escolhidos, entregues com a necessária antecedência e anunciados com tempo de poderem prepará-los, e discuti-los, todos os membros da seção. Os trabalhos, antes de apresentados em reunião, devem ser vistos pelo Diretor da Congregação ou por outrem competente.

Vida Externa

Compreende as obras de apostolado social e as múltiplas relações da Congregação ou dos Congregados, como membros dela.

Obras de apostolado

1. Bom exemplo;

2. Ensino e estudo da doutrina cristã;

3. Visita aos enfermos;

4. Visita aos presos e pobres;

5. Promoção da frequência aos Sacramentos;

6. Propagação da Comunhão Reparadora e Adoração;

Obras de educação

1. Promover a difusão da Boa Imprensa;

2. Promover a fundação de escolas católicas;

3. Procurar a fundação de catequeses, oratórios festivos, bibliotecas populares de bons livros;

4. Auxiliar eficazmente as obras da Propagação da Fé, dos seminários, das vocações sacerdotais e religiosas, universidades católicas, etc

O conjunto da vida interna e externa dos Congregados faz que o altar da Congregação seja um foco de bênçãos, de amor, de fé, de vida sobrenatural e de atividade cristã e apostólica. Nele se haurem forças e ânimos, se retemperam corações, armas e dele se voa, com valentia e ufania, aos combates da vida, que, à sombra do Coração e do manto de Maria, não deixam nunca de ser coroados de vitória e de prêmio. As Congregações Marianas, como bem alto proclamam suas próprias leis aprovadas pela Igreja, são associações impregnadas de espírito apostólico e como tais incitam seus membros, por vezes elevados às culminâncias da santidade, não somente a realizarem em si e nos demais o ideal da perfeição cristã, mas ainda, com o favor dos Sagrados Pastores, a defenderem os direitos da Igreja, conseguindo formar incansáveis arautos da Vir-gem Santíssima e propagadores do Reino de Cristo

Pio XII em Bis Saeculari Diae

Vantagens da Congregação

Quem sente mais de perto os frutos imediatos das Congregações são os seus próprios membros, porque: (grifos da edição)

1. A Congregação por si mesma lhe dá todos os bens da associação: União, esforços comuns, luz, orientação, méritos, privilégios e apoio.

2. Tem uma proteção especial da Santíssima Virgem Maria, por se consagrarem de modo também especial, ao serviço e culto da Mãe de Bondade: “Esta divina Mãe acode-lhes quando carecem do seu auxílio, consola-os na aflição, protege-os nos perigos, assiste-lhes nas enfermidades, fortifica-os na hora extrema e lhes dá uma boa e santa morte”

3. Tem ao lado o zelo de um Diretor solícito e ouvem muitas exortações e leituras de piedade, que são o pasto do espírito e lhes dão novas forças.

4. A eles, mais que a ninguém, aproveitam os bons exemplos. Entre os congregados encontram-se sempre fiéis que vivem, em corpos mortais, a vida pura dos anjos, chefes de família verdadeiramente cristãos, homens de probidade e proceder irrepreensível. E será possível que, vendo-os e convivendo com eles, não diga cada um para si: “Por que não farei eu o que vejo praticado pelos outros?” — Foi esta reflexão que converteu S. Agostinho e S. Inácio.

5. Aproveitam-lhes até as orações comuns que tem uma força particular na presença de Deus.

6. Para eles são em particular “os socorros mútuos da caridade cristã”. Os congregados amam-se uns aos outros como verdadeiros irmãos: Cor unum et anima una. Quaisquer que sejam as circunstâncias em que se encontrem, acharão em seus irmãos santas e caridosas consolações, nos momentos de dificuldade e no derradeiro alento.

7. Para a vida cristã dos Congregados faz muito o “empenho que contraem em cumprir as Regras da Congregação, frequentar os Sacramentos, propagar o Culto de Nossa Senhora e de desejar serem avisados quando tiverem caído em qualquer falta”. Estas obrigações, embora não se imponham sobre pena de pecado, é certo que supõem elas uma alma de boa vontade que tomou a sério o cumprimento dos seus deveres, na feliz necessidade de praticar a virtude.

8. Acresce o merecimento das boas obras de todos os Congregados a que cada um tem legítimo direito; e para avaliar todo o alcance deste merecimento, bastará recordar as inumeráveis práticas de devoção e caridade próprias da Congregação.

9. Finalmente, as indulgências da Santa Igreja são um incentivo pra aproveitar os tesouros da graça, e uma poderosa consolação ao pensar na satisfação quem pedem os nossos pecados.

Do que fica dito, facilmente se conclui com quanta propriedade S. Bernardino aplicava às Congregações Marianas o que S. Bernardo dizia das Comunidades religiosas: “Ali vive o homem mais puro: cai menos vezes em pecado; quando cai, é menos gravemente; levanta-se mais depressa; anda com mais precaução; tem mais sossego de espírito; é mais orvalhado com a chuva da divina graça; satisfaz mais a Deus e abrevia o purgatório; morre com maior confiança e alegria e é coroado de maior glória no Céu”.

No meio social, quando nele vivem vida de fervor, ação e zelo, é impossível que as Congregações não façam sentir intensa e extensamente os seus benéficos influxos. Porque a família e a sociedade lucram sempre quando contam em seu seio homens respeitadores da autoridade e da lei, amantes da ordem, da paz e do progresso, cumpridores conscientes do dever, votados de coração à prática das virtudes cristãs, especialmente à piedade, caridade, abnegação e sacrifício. E tais são os que as Congregações formam.

Depois, a Congregação é sempre um foco de apostolado direto: Na família, pela educação cristã; na paróquia, pelas obras de piedade e seções; na sociedade, pelas relações e influência dos seus membros. As obras de caridade, quando a Congregação é o que deve ser, estendem-se às classes indigentes, num duplo influxo de benfazer que mata a fome do corpo e melhora, preservando até, as almas e os costumes.

Na defesa dos sãos princípios é, por natureza, a Congregação um baluarte da fé e da razão. A obediência completa à autoridade eclesiástica, o conhecimento mais profundo da religião, o manejo das armas apologéticas nas formações, academias e círculos fazem de cada Congregado um combatente destro e valoroso, com que hão de haver-se os inimigos de Deus e da Igreja. Na propaganda, finalmente, dos princípios cristãos e no ataque aos erros modernos, a palavra e a pena dos

Congregados podem ser, e tem sido muitas vezes, um dos impulsores mais eficazes da resistência às insídias do mundo contra a Igreja, a Ordem e a Fé.

Com efeito, o ideal moral proposto pela Congregação é o mais levantado e puro: A Virgem Santíssima. E o amor efetivo e ardente à mãe de Deus faz brotar nos corações e alimenta neles as flores e frutos de todas as virtudes Cristãs.

A vida quotidiana do bom Congregado é o exercício contínuo e perseverante do amor ao dever e o cumprimento deste, em todas as conjunturas da vida e à custa dos sacrifícios necessários. Assim se forma a consciência, domam-se as paixões e se educa e fortalece a vontade, enquanto nas lides ordinárias e nos horizontes mais amplos abertos à iniciativa nas formações, academias e círculos, a inteligência se ilumina e exercita para os largos vôos da vida.

Numa palavra: O congregado tem na Congregação Mariana uma luz, uma força, uma orientação, uma fonte perene de espírito cristão e apostólico. Se o aproveita como deve, se dele se informa e conserva, será na vida inteira um combatente incansável de Deus e da Igreja, um apóstolo verdadeiro no meio em que viver, seja qual for seu estado e condição. Felizes os corações que na Congregação Mariana sabem dar-se generosamente a Deus, pelas mãos de Maria e feliz a sociedade em cujo seio florescem as Congregações Marianas.


Do Blog: Salve Maria

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

A virtude da obediência, segundo Santo Afonso


Em uma sociedade que enfrenta cada vez mais uma crise de autoridade, falar de obediência é algo desafiador. Porém, eu acredito que quando apresentamos o verdadeiro sentido de algo, se torna mais fácil compreendê-lo e até mesmo aceitá-lo.

A obediência é um dos fundamentos da vida social. É impossível viver em sociedade e não ser orientado por leis e regras. A obediência proporciona as pessoas o autocontrole e a capacidade do autoconhecimento. Quando nos deixamos guiar por nossos instintos, nós nos tornamos naturalmente indolentes, dados a ceder a qualquer coisa.

Quando, por ideologia, somos tentados a acreditar que a obediência tira nossa “liberdade”, nós nos corrompemos, e assim passamos a viver a libertinagem, uma falsa compreensão do ser realmente livre.
O homem livre não é aquele que faz o que quer quando bem quer; essa é uma ilusória compreensão de liberdade. O homem realmente livre é aquele que sabe respeitar os limites. Deus nos criou livres! A liberdade está na origem do homem.

Quando eu compreendo as regras como algo que me priva de alguma coisa, eu não compreendi o verdadeiro sentido!

As regras são formas de agir em determinados espaços, tenho sempre que me lembrar que o mundo não é composto só por mim, existe o nós. Se cada um fizer a sua parte, fica mais fácil conviver.
Nós somente somos livres no amor, somos obedientes na caridade. Para que haja a verdadeira compreensão do que é a obediência e, mais do que isso, praticá-la, é necessário resiliência.
A resiliência é a capacidade do indivíduo lidar com problemas, adaptar-se a mudanças ou superar obstáculos. O indivíduo resiliente é livre, criativo e capaz de se reinventar frente aos problemas.
A alma obediente acolhe aquilo que Deus lhe propõe. E sobre isso fala o apóstolo Paulo: “Obedecei com simplicidade de coração”. Quando se ama a Deus com perfeição, obedecer, se torna uma prova de amor. Quanto mais amamos, mais deixamo-nos envolver pelo outro. Isso não é diferente em nossas relações com Deus. Se amamos realmente a Deus, sentimo-nos impelidos a cumprir a Sua vontade.
Se queremos um exemplo de obediência na liberdade, basta olharmos para Cruz! Ali está um homem/Deus, que na Sua liberdade, foi obediente. São Paulo aos Filipenses escreve: “Humilhou-se a si mesmo tornando-se obediente, obediente até a morte e morte de cruz”.

O fruto da obediência de Cristo é nossa redenção. Se Cristo tivesse pensado só em Si, se questionasse Sua liberdade ou tivesse sido desobediente… O que seria de nós? Por Sua obediência Ele nos fez livres, livres no amor!

A obediência é muito mais do que simplesmente uma regra moral, ela é um princípio de vida. Para viver em comunidade, em sociedade e em paz consigo mesmo é preciso obediência.

Santo Afonso nos exorta quanto a isso:
“Há pessoas tão agarradas à sua própria vontade que, quando lhes é ordenado alguma coisa, ainda que seja do seu gosto, pelo fato de a terem de fazer por obediência perdem a vontade de fazê-la”.
A virtude da Obediência está intimamente unida a conformidade com a vontade de Deus.

Por isso, adverte-nos Santo Afonso:
“Aquele que trabalha segundo a sua própria vontade, e não conforme a vontade de Deus, comete uma espécie de idolatria, porque em lugar de adorar à vontade divina, adora de alguma maneira a sua própria”.
Que a obediência nos oriente em nossa caminhada.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

A lembrança da morte e o jejum quaresmal


“Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”


Meditação para Quarta-feira de Cinzas


Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris – “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar” (Gn 3, 19)

Sumário. Os insensatos que não creem na vida futura estimulam-se com o pensamento da morte a passarem bem a vida. De maneira bem diferente devemos nós proceder, os que sabemos pela fé que a alma sobrevive ao corpo. Nós, lembrando-nos de que em breve temos que morrer, devemos cuidar da nossa eternidade e por meio de oração e penitência aplacar a justiça divina. É com este intuito que a Igreja, depois de por as cinzas sobre a cabeça, nos ordena o jejum da Quaresma.

I. Para compreendermos em toda a sua extensão o sentido destas palavras, imaginemos ver uma pessoa que acaba de exalar o último suspiro. Ó Deus, a cada um que vê este corpo, inspira nojo e horror. Não passaram bem nem vinte e quatro horas depois que aquela pessoa morreu e já o mau cheiro se faz sentir. É preciso abrir as janelas e queimar bastante incenso, a fim de que o fedor não infeccione a casa toda. Os parentes com pressa mandam levar o defunto para fora da casa e entregar à terra.

Metido que foi o cadáver na sepultura, vai se tornando amarelo e depois preto. Em seguida, aparece em todos os membros uma lanugem branca e repelente, donde sai um pus infecto que corre pela terra e donde se gera uma multidão de vermes. Os ratos veem também procurar o pasto neste cadáver, roendo-o uns por fora, ao passo que outros entram na boca e nas entranhas. Despegam-se e caem as faces, os lábios, os cabelos; escarnam-se os braços e as pernas apodrecidas, e afinal os vermes, depois de consumidas todas as carnes, consomem-se a si próprios. E deste corpo só restará um esqueleto fétido, que com o tempo se divide, ficando reduzido a um punhado de pó.

Eis aí o que é o homem, considerado como criatura mortal. Eis aí o estado a que tu também, meu irmão, serás, talvez em breve, reduzido: um punhado de pó fedorento. Nada importa ser alguém moço ou velho, são ou enfermo: a todos caberá a mesma sorte, o que a Igreja recorda pondo as cinzas bentas indistintamente sobre a cabeça de todos: Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris — “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”.

II. Os insensatos que não creem na vida futura e têm as verdades eternas por fábulas, estimulam-se, com a lembrança da morte, a levar vida folgada e a gozarem. Comedamus et bibamus; cras enim moriemur (1) — “Comamos e bebamos, porque amanhã morreremos”. De maneira bem diferente, porém, diz Santo Agostinho, deve proceder o cristão, que pela fé sabe que a alma sobrevive ao corpo e que, depois da morte deste, terá de dar contas rigorosíssimas de tudo quanto tiver feito. — O cristão, que se lembra que em breve deverá deixar o mundo, cuidará da sua eternidade e procurará aplacar a justiça divina com penitências e orações. É por isso exatamente que a Igreja, depois de nos ter posto as cinzas sobre a cabeça, ordena a seus ministros que notifiquem aos fiéis o jejum quaresmal: Canite tuba in Sion: sanctificate ieiunium (2) — “Fazei soar a trombeta em Sião, santificai o jejum”.

Conformemo-nos, portanto, com as intenções de nossa boa Mãe; e como ela mesma o ordena, sejamos no santo tempo da Quaresma “mais sóbrios em palavras, na comida, na bebida, no sono, nos divertimentos” (3); e, o que é mais necessário, afastemo-nos mais de toda a culpa por meio de uma vida recolhida e consagrada à oração, porquanto, no dizer de São Leão, “sem proveito se subtrai o alimento ao corpo, se o espírito não se afasta mais da iniquidade”.


Ó meu amabilíssimo Redentor, consenti que eu una a minha salutar abstinência com a que Vós com tanto rigor por mim quisestes observar no deserto. Consenti também que nesta união eu a ofereça a vosso Pai Divino, como protestação de minha obediência à Igreja, em desconto de meus pecados, pela conversão dos pecadores e em sufrágio das almas santas do purgatório. Tenho intenção de renovar esta oferta todos os dias da Quaresma. “Vós, porém, ó Senhor, concedei-me a graça de começar este solene jejum com devida piedade e de continuá-lo com devoção constante” (4), a fim de que, chegada a Páscoa, depois de ter ressurgido convosco para a vida da graça, seja digno se ressuscitar também para a vida da glória. Fazei-o pelo amor de Maria Santíssima.

Referências:

(1) Is 22, 13
(2) Joel 2, 15
(3) Hymn. Quadr.
(4) Or. Fer. curr.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

Meditação de Santo Afonso para o domingo da Quinquagésima



Como poderemos deixar de amá-Lo de todo o nosso coração, e recusar-nos a sofrer alguma coisa por seu amor?


Consummabuntur omnia, quae scripta sunt per prophetas de filio hominis – “Será cumprido tudo o que está escrito pelos profetas, tocante ao Filho do homem” (Lc 18, 31)

Sumário. Não é sem uma razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. A nossa boa Mãe deseja que nós, seus filhos, nos unamos a ela, para compadecermos do seu divino Esposo, e o consolarmos com os nossos obséquios, ao passo que os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam todos os ultrajes descritos no Evangelho. Quer ela também que roguemos pela conversão de tantos infelizes, nossos irmãos. Não temos por ventura bastantes motivos para isso?

I. Não é sem razão mística que a Igreja propõe hoje à nossa meditação Jesus Cristo predizendo a sua dolorosa Paixão. Deseja a nossa boa Mãe que nós, seus filhos, nos unamos a ela na compaixão de seu divino Esposo, e o consolemos com os nossos obséquios; porquanto os pecadores, nestes dias mais do que em outros tempos, lhe renovam os ultrajes descritos no Evangelho.

Tradetur gentibus — “Ele vai ser entregue aos gentios”. Nestes tristes dias os cristãos, e quiçá entre eles alguns dos mais favorecidos, trairão, como Judas, o seu divino Mestre e o entregarão nas mãos do demônio. Eles o trairão, já não às ocultas, senão nas praças e vias públicas, fazendo ostentação de sua traição! Eles o trairão, não por trinta dinheiros, mas por coisas mais vis ainda: pela satisfação de uma paixão, por um torpe prazer, por um divertimento momentâneo!

Illudetur, flagellabitur et conspuetur — “Ele será mortejado, flagelado e coberto de escarros”. Uma das baixezas mais infames que Jesus Cristo sofreu em sua Paixão, foi que os soldados lhe vendaram os olhos e, como se ele nada visse, o cobriram de escarros, e lhe deram bofetadas, dizendo: Profetiza agora, Cristo, quem te bateu? Ah, meu Senhor! Quantas vezes esses mesmos ignominiosos tormentos não Vos são de novo infligidos nestes dias de extravagância diabólica? Pessoas que se cobrem o rosto com uma máscara, como se Deus assim não pudesse reconhecê-las, não têm pejo de vomitar em qualquer parte palavras obscenas, cantigas licenciosas, até blasfêmias execráveis contra Santo Nome de Deus! — Et postquam flagellaverint, occident eum — “Depois de o terem açoitado, o farão morrer”. Sim, pois se, segundo a palavra do Apóstolo, cada pecado é uma renovação da crucifixão do Filho de Deus, ah! Nestes dias Jesus será crucificado centenas e milhares de vezes.

É exatamente isto que Jesus Cristo quis dizer a Santa Gertrudes aparecendo-lhe num domingo de Quinquagésima, todo coberto de sangue, com as carnes rasgadas, na atitude do Ecce Homo, e com dois algozes ao lado, os quais lhe apertavam a coroa de espinhos e o batiam sem piedade. Ah! Meu pobre Senhor!

II. Refere o Evangelho em seguida, que, aproximando-se Jesus de Jericó, um cego estava sentado à beira da estrada e pedia esmolas. Ouvindo passar a multidão, perguntou o que era. Sabendo que passava Jesus de Nazaré, apesar de a gente o ralhar, a fim de que se calasse, não cessava de gritar: Jesus, Filho de Davi, tende piedade de mim (1). Por isso mereceu que, em recompensa de sua fé, o Senhor lhe restituísse a vista: Fides tua te salvum fecit — “A tua fé te valeu”.

Se quisermos agradar ao Senhor, eis aí o que também nós devemos fazer. Imitemos a fé daquele pobre cego, e neste tempo de desenfreada licença, enquanto os outros só pensam em se divertir com prazeres mundanos, procuremos estar, mais que de ordinário, diante do Santíssimo Sacramento. Não nos importemos com os escárnios do mundo, lembrando-nos do que diz São Pedro Crisólogo. Qui iocari voluerit cum diabolo, non poterit gaudere cum Christo — “Quem quiser brincar com o demônio, não poderá gozar com Cristo”. Quando nos acharmos em presença de Jesus no tabernáculo, peçamos-lhe luz para detestarmos as ofensas que o magoam tão profundamente. Peçamos-lhe não somente para nós mesmos, senão também para tantos irmãos nossos desviados: Domine, ut videam — “Senhor, fazei-me ver”.


Amabilíssimo Jesus, Vós que sobre a cruz perdoastes aos que Vos crucificaram, e desculpastes o seu horrendo pecado perante o vosso pai, tende piedade de tantos infelizes que, seduzidos pelo Espírito da mentira, e com o riso nos lábios, vão neste tempo de falso prazer e de dissipação escandalosa, correndo para a sua perdição. Ah! Pelos merecimentos de vosso divino sangue, não os abandoneis, assim como mereceriam, Reservai-lhes um dia de misericórdia, em que cheguem a reconhecer o mal que fazem e a converter-se. — Protegei-me sempre com a vossa poderosa mão, a fim de que não me deixe seduzir no meio de tantos escândalos e não venha a ofender-Vos novamente. Fazei que eu me aplique tanto mais aos exercícios de devoção, quanto estes são mais esquecidos pelos iludidos filhos do mundo. “Atendei, Senhor, benigno às minhas preces, e soltando-me das cadeias do pecado, preservai-me de toda a adversidade.”(2) † Doce Coração de Maria, sêde minha salvação.

Referências:

(1) Lc 18, 38
(2) Or. Dom. curr.