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terça-feira, 7 de abril de 2026

Os Discípulos de Emaús


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Lucas 24, 13-32

Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.

Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.»

Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito.

Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?»


Meditação para a Segunda-feira da Páscoa
SUMARIO

Meditaremos no Evangelho tão tocante dos dois discípulos de Emaús, e veremos:


1.° Quais foram nesta ocasião os seus defeitos e as suas virtudes;

2.º Qual foi a bondade de Jesus Cristo para conosco.

— Tomaremos depois a resolução:


1.° De nos conservarmos unidos a Jesus Cristo pelo recolhimento de espírito, e dóceis às inspirações da Sua graça;

2.º De vigiarmos sobre as nossas conversações, para evitar qualquer palavra repreensível.

O nosso ramalhete espiritual será a reflexão destes discípulos:

“Não é verdade que nós sentíamos abrasar-se-nos o coração quando Jesus Cristo nos falava pelo caminho?” – Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via? (Lc 24, 32)
Meditação para o Dia

Transportemo-nos pelo pensamento à estrada de Emaús; consideremos Jesus Cristo chegando-se aos dois discípulos que viajam, e travando com eles uma santa conversação. Bendigamo-lO por esta solícita caridade, e roguemos-Lhe que nos faça tirar proveito desta amável entrevista.

PRIMEIRO PONTO
Defeitos e Virtudes dos discípulos de Emaús

1.° Estes discípulos não sabem esperar. Jesus Cristo tinha dito: «Ressuscitarei ao terceiro dia»; e eles não esperam que finde o terceiro dia; partem desanimados. É isto também o que muitas vezes nos acontece: queremos ser ouvidos logo; qualquer dilação nos perturba e abala a nossa fé. Merecemos que Jesus nos diga como a eles:


« Ó estultos e tardos de coração para crer»! (Lc 24, 5)

2.° Vão buscar a sua consolação fora, em uma viagem a Emaús. Esquecem que a verdadeira consolação está só em Deus, e que há mais prejuízo do que lucro em buscá-la nas criaturas. Se Jesus Cristo não viesse em seu socorro, perderiam a fé, pois que não tinham crido nem as santas mulheres nem os Apóstolos, que lhes afirmavam a ressurreição do Salvador; perderiam a esperança, pois que já começavam a não esperar: Nós esperávamos – Sperabamus (Lc 24, 21), diziam eles; finalmente perderiam a caridade, pois que já não viam em Jesus Cristo senão um profeta e não falavam já dele como seus discípulos, mas como estranhos.

3.° Recusam compreender a ligação de duas coisas tão inseparáveis como o meio e o fim, saber a cruz e a glória, a morte e a vida, padecer pouco tempo e gozar eternamente; e é preciso que Jesus Cristo lhes recorde esta verdade capital:


“Não importava que Jesus Cristo padecesse, e que assim entrasse na sua glória?”

Não somos nós um pouco como eles?

Mas se estes discípulos tinham defeitos, também tinham virtudes próprias para nos edificar. Assim:

1.° A sua conversação é santa; e à pergunta do Salvador:


“Que é isso que vós ides praticando e conferindo um com outro” – Qui sunt hi sermones quos confertis ad invicem? (ibid, 17)

Eles podem responder:


“Falamos de Jesus” – De Jesu Nazareno (Ibid, 19)

Ai! Se o Salvador, no meio das nossas conversações, nos fizesse a mesma pergunta que a eles, poderíamos dar igual resposta? Não teriam os de envergonhar-nos de muitas palavras de maledicência, de zombaria, de disputa, de imprudência, de cólera? E não poderia Nosso Senhor dizer-nos: São conversações próprias de um cristão que aspira à santidade, de um servo de Jesus Cristo que tem ainda a língua tingida do Seu sangue? São conversações essas que na hora da morte desejaríeis ter tido?

2.º Os nossos viajantes ouvem com grande respeito os ensinos de Jesus Cristo; gravam-os em seu coração, que se lhes abrasava num santo fervor (1).

3.° Unem-se a Ele, e não querem mais separar-se dEle: Ficai na nossa companhia, Senhor, (2) lhe dizem eles. Belas palavras, que nós mesmos lhe devemos dirigir muitas vezes! Ficai conosco nos trabalhos, para nos preservardes da impaciência, da desanimação, e mas ensinardes a bendizer a Deus por tudo; ficai conosco nas tentações e provações, para nos amparardes; ficai conosco nas tribulações, nas doenças, e no perigo de morte, para nos assistirdes; ficai conosco no meio dos males da Igreja e das trevas da iniquidade que cobrem a terra, para nos defenderdes e nos esclarecerdes.

4.° Eles reconheceram Nosso Senhor na fração do pão (3), isto é, na comunhão: com efeito, é ali que a alma cristã reconhece todo o amor do divino Salvador.
Romance



5.° Depois de O terem recebido, eles partem para Jerusalém, a fim de anunciá-lO aos Apóstolos (4): quando se ama, tem-se a peito fazer que amem aquele que se ama.

SEGUNDO PONTO
Tocante bondade de Jesus para com os discípulos de Emaús


Jesus Cristo compadece-se destas duas ovelhas desgarradas, que se haviam separado dos outros Apóstolos: chega-se a eles com afabilidade, trava conversação com eles, caminha a seu lado, pergunta-lhes sobre que falam, não porque o ignore, mas para lhes dar ocasião de desafogarem o seu coração, e ter Ele mesmo ocasião de lhes explicar o mistério dos Seus tormentos e da Sua morte. Repreende-os caridosamente para os incitar a entrar em si mesmos, e a reconhecer a sua sem razão; prova-lhes que o que têm dito do Messias as Sagradas Escrituras desde Moisés até aos profetas, se realizou na Sua pessoa; e ao mesmo tempo que lhes esclarece a inteligência, move-lhes o coração, excita-lhes a vontade e os abrasa em amor divino. Finalmente, tendo chegado a Emaús, depois de ter fingido que ia para mais longe, a fim de lhes incutir o desejo de O possuírem, entra na hospedaria em que eles estavam; e como se fosse uma igreja, ali consagra e lhes distribui a Eucaristia, e só se retira depois de os ter assim alimentado com o pão dos anjos.

É possível haver mais bondade, mais condescendência e amor? É deste modo que Nosso Senhor se porta a nosso respeito. A Sua graça preveniente vem ter conosco no caminho da vida; acomoda-se à nossa fraqueza, esclarece-nos com a Sua divina luz, atrai-nos com as Suas suaves inspirações, entremeia a animação com a repreensão; emfim não nos deixa sem que nos haja ganhado, levando o consentimento da vontade sem violentar a nossa liberdade. Oh! Quão bem merece tanta bondade todo o nosso amor! Como lhe correspondemos nós? Não somos nós infiéis à graça e rebeldes às Suas inspirações?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Nonne cor nostrum ardens erat in nobis dum loqueretur in via? (Lc 24, 32)

(2) Mane nobiscum, quoniam adverperascit, et inclinata est jam dies (Ibid, 29)

(3) Cognoverunt eum in fractione panis (Ibid, 35)

(4) Surgentes eadem hora, regressi sunt in Jerusalem (Ibid, 33)


(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 235-240)

domingo, 5 de abril de 2026

A Ressurreição, triunfo da Fé e da Esperança


Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos 16,

Passado o sábado, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ir embalsamá-lo. De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro.

Diziam entre si: «Quem nos irá tirar a pedra da entrada do sepulcro?» Mas olharam e viram que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas.

Ele disse-lhes: «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui. Vede o lugar onde o tinham depositado. Ide, pois, e dizei aos seus discípulos e a Pedro: ‘Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá o vereis, como vos tinha dito’.»


Meditação para o Dia da Páscoa
SUMARIO

Destinaremos a nossa meditação a considerar a ressurreição de Jesus Cristo como o triunfo:


1.° Da nossa Fé;

2.º Da nossa Esperança.

— Tomaremos depois a resolução:

1.° De louvarmos, glorificarmos e agradecermos com frequentes aspirações a Jesus Cristo ressuscitado aleluia;

2.º De fazermos muitas vezes atos de fé à divindade de Jesus Cristo, da Sua religião e da Sua Igreja, assim como atos de esperança para a vida futura.

O nosso ramalhete espiritual será o cântico da Igreja neste dia:


“Na verdade que o Senhor ressuscitou, aleluia” – Surrexit Dominus verem alleluia

Meditação para o Dia

Entremos esta manhã em todos os sentimentos de louvor, de adoração e de amor para com Jesus Cristo ressuscitado. Regozijemo-nos e alegremo-nos. Este é o dia que o Senhor fez, o dia da vitória e do triunfo. Juntemo-nos com os anjos para cantar glória a Deus, aleluia.
Romance


PRIMEIRO PONTO
A Ressurreição de Jesus Cristo é o triunfo da nossa Fé


Na verdade que o Senhor ressuscitou (Lc 24, 34). Os Apóstolos, que O atestam e selaram com o seu sangue o Seu testemunho, não podiam enganar-se, pois que conversaram com Ele quarenta dias; não quiseram enganar-nos, pois, que os seus mais caros interesses neste mundo e no outro a isso se opunham (1); e de mais a mais, se Jesus Cristo não ressuscitasse, só podia ser aos seus olhos um impostor, que os havia escarnecido pregando-lhes a Sua ressurreição; não teriam podido até enganar-nos, ainda que o desejassem, pois que os soldados romanos, que guardavam o sepulcro, não teriam deixado levar o corpo: é, portanto, certíssimo, ó Senhor Jesus, que na verdade ressuscitastes; é, portanto, certíssimo que sois o Deus Todo-Poderoso, pois que um homem morto não pode ressuscitar-se (2); e que só Deus, que dispõe da vida e da morte, é capaz de semelhante prodígio. Ó santo dia de Páscoa, quão prezado me és! A ressurreição do meu Salvador garante-me a Sua divindade, e por conseguinte garante-me todas as minhas crenças (3); porque se Jesus Cristo é Deus, divina é a Sua religião, divino é o Evangelho, que é a Sua palavra, divinos são os Sacramentos que instituiu, divina é a Igreja que fundou; e crendo-a, estou certo de me não enganar, tão certo como se já estivesse no céu contemplando a verdade da beatífica visão. Seguindo a minha fé, sigo, pois, um guia infalível, e fazendo os sacrifícios que me pede, sei que não perco o meu trabalho, e que Deus me há de recompensar. Em vão o incrédulo combate a minha crença; em vão os povos clamam; em vão os judeus gritam que é um escândalo e uma estultícia: Jesus Cristo ressuscitado responde a tudo, e não há objeção que não venha espedaçar-se contra a pedra do seu sepulcro.

Que consolação, que triunfo para a fé que não necessita senão deste único fato para ser altamente justificada! Quão justo é que reanimemos esta fé neste belo dia, que creiamos as coisas da religião como se as víssemos (4), e que nos mostremos homens de fé nas obras, nas palavras, na oração e no lugar santo, por toda a parte e sempre!

SEGUNDO PONTO
A Ressurreição de Jesus Cristo é o triunfo da nossa Esperança


O homem, que só vive pouco tempo neste mundo entre muitas misérias, necessita de ter esperança; mas alegra-se hoje cantando com a Igreja:


«Jesus Cristo, minha esperança, ressuscitou» – Surrexit Christus spes mea

A ressurreição do Salvador é para nós o penhor e a segurança de uma ressurreição semelhante, que nos há de indenizar de todas as penalidades da vida. Jesus Cristo é o primogênito de entre os mortos (5), diz o Apóstolo. Logo, depois dEle, os outros mortos renascerão também das suas cinzas. Nós formamos com Ele um corpo, de que Ele é a cabeça, diz o mesmo Apóstolo; mas os membros devem seguir a sua cabeça. Que é um corpo, cuja cabeça estivesse de um lado, e cujos membros estivessem do outro? É admissível que o Espírito Santo tivesse designado debaixo da figura da cabeça e dos membros Jesus Cristo e os fiéis, se devessem viver assim separados? Se formamos um só corpo com Jesus Cristo, a Sua ressurreição acarreta a nossa, assim como a nossa acarreta a Sua: uma depende essencialmente da outra.


“Se se praga, diz São Paulo, que Jesus Cristo ressuscitou de entre os mortos, como dizem alguns entre vos outros que não ha ressurreição de mortos?” – Si Christus praedicatur, quod resurrexit a mortuis, quomodo quidam dicunt in vobis quoniam resurrectio mortuorum non est? (1Cor 15, 12)

Dogma consolador, que faz o triunfo da nossa esperança entre os trabalhos da vida: porque se havemos de ressuscitar como Jesus Cristo, a nossa tristeza será mudada em alegria, as nossas dores em delícias, a nossa pobreza em riqueza, a nossa confusão em glória, a nossa morte em uma vida eterna.


“Eu sei, dizia Jó, que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido da minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus, a quem eu mesmo hei de ver, e meus olhos hão de contemplar e não outro: esta minha esperança está depositada no meu peito” – Scio quod Redemptor meus vivit, et in novissimo die de terra surrecturus sum; et rursum circumdabor pelle mea, et in carne mea videbo Deum meum; quem visurus sum ego ipse, et oculi mei conspecturi sunt, et non alius: reposita est haec spes mea in sinu meo (Jó 19, 25)


“O Rei do mundo, dizia o segundo dos Macabeus, nos ressuscita para a vida eterna” – Rex mundi defunctus nos pro suis legibus in aeternae vitae resurrectione suscitabit (2Mac 7, 9)


“Do céu recebi estes membros, dizia o terceiro, mas eu os desprezo, porque Deus m’os tornará a dar algum dia” – Haec ipsa despicio, quoniam ab ipso me ea recepturum spero (ibid, 11)


“É-nos melhor ser entregues à morte, dizia o quarto, esperando firmemente em Deus, que de novo havemos de ser por ele ressuscitados” – Potius est ab hominibus morti datos spem expectare a Deo, iterum ab ipso resuscitandos (Ibid, 14)

Que me importa, dizia Santa Manica, morrer longe da minha pátria, se Deus no fim dos tempos há de saber achar-me para me ressuscitar? Finalmente, todos os mártires e santos morreram nesta esperança, contando com uma nova terra e novos céus, onde os corpos dos santos serão gloriosos, impassíveis, imortais, resplandecentes como o sol, ágeis como os espíritos, onde não haverá dores nem lágrimas, onde tudo será felicidade.

Ó magnifica esperança! Quanto nos alegraremos então de termos padecido com paciência, de nos termos mortificado e privado dos vãos gozos terrenos?

Resoluções e ramalhete espiritual como acima

Referências:

(1) Si in hac vita tantum… sperantes sumus, miserabiliores sumus omnibus hominibus (1Cor 15, 19)

(2) Praedestinatus est Filius Dei… ex resurrectione (Rm 1, 4)

(3) Scio cui credidi (2Tm 1, 12)

(4) Invisibilem tanquam videns (Hb 11, 27)

(5) Primitiae dormientium (1Cor 15, 20)


(HAMON, Monsenhor André Jean Marie. Meditações para todos os dias do ano: Para uso dos Sacerdotes, Religiosos e dos Fiéis. Livraria Chardron, de Lélo & Irmão – Porto, 1904, Tomo II, p. 231-235)

sábado, 22 de dezembro de 2018

Meditação para o 4° Domingo do Advento

Pe. João Mendes S.J

       A vinda do Messias à alma é um avanço da graça e uma correspondência do homem. A nossa Vida é um encontro: porque a Promessa não falta, e da nossa parte, trazemos em nós um desejo antigo, a demanda vaga de qualquer bem misterioso que venha saciar a expectativa. Somos um Advento. Temos, pois, que preparar os caminhos do Enviado, indo ao seu encontro, com uma grande pureza: " Preparai o caminho do senhor, endireitai as suas veredas". E isto, não de uma vez para sempre, porque Cristo está sempre a vir, e nós sempre a espera-lo.
     Os Judeus não O receberam, nem mesmo O reconheceram. Que é que os impediu de descobrirem o Messias? O conceito grosseiro que dEle faziam. Também aqui se pode dizer que cada um tem os deuses que desejar e merecer.


1. SE PROCURARMOS UM MESSIAS ESPIRITUAL

     1. OS JUDEUS ESPERAVAM UM MESSIAS TEMPORAL, um reino vitorioso da terra, que lhes traria todas as prosperidades. A pobreza e a humilhação ainda não eram tidos como bem-aventuranças. " Os pobres são evangelizados..." dizia N.S. Jesus Cristo no Evangelho de um dos domingos anteriores; e era esse um dos sinais dos tempos messiânicos. O Antigo Testamento, em relação ao Novo, pode considerar-se como uma espécie de infantilidade moral, em que a alma humana e sua consciência andavam ainda sob o pedagogo que a conduziria à maioridade do Cristianismo.
     E nós embora com fé, continuamos talvez o mesmo erro e ilusão, pretendo harmonizar Cristianismo e vida regalada. Conhecemos o verdadeiro Cristo, naquele continuado Advento, que corresponde à nossa continuada expectativa do Bem verdadeiro? Que são as graças que pedimos e as orações que fazemos, senão a configuração da nossa esperança? E não são elas, as mais das vezes, pedidos de coisas materiais? Qual for a nossa esperança tal será o nosso Messias....
      2. O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO. O motivo por que o Redentor exige o sacrifício não só do material mas, até, muitas vezes, do que é meramente natural, é que a sua mensagem é sobrenatural. Àquele sonho de grandeza e de superação desmedida, que em nós, vagamente dormita, corresponde Ele com o dom inaudito da Filiação Divina. Vem fazer-nos homens espirituais e celestes, que olham ao largo e ao longe. E, o homem material, infiel à sua própria e mais autêntica ambição, não compreende o homem espiritual. Foi por isso que os judeus não compreenderam a grandeza de Cristo, ao colocar o segredo da vida para além da morte. No centro do cristianismo viria a estará cruz, como ponto de perspectiva. Como poderiam receber um messias crucificado aqueles que amavam os frutos da terra e os rebanhos, e que mediam por eles as predileções de Deus? É a tendência arraigada em nós, pelo nosso comodismo egoísta, de transformarmos e medirmos o favor de Deus, em termos de prosperidade tranquila: o Senhor é nosso amigo se tudo correr bem ...

2. SE PROCURARMOS UM MESSIAS HUMILDE

      1. O SALVADOR DE ISRAEL... O Messias era, também, para os judeus, o libertador político, o restaurador das honras perdidas, alguém que viria a consagrar-lhes as posições ocupadas. Para os sacerdotes e fariseus seria uma espécie de apoio político da influência religiosa.
     Nós, também, não desejaremos, secretamente, um Cristianismo honrado e honroso, lucrar em honra e proveito com o nome de cristãos? A defesa da civilização cristã não será, muitas vezes, um disfarce de egoísmo?
     2. MONTES E OUTREIROS SERÃO ARRASADOS...ora Cristo vem trazer a guerra, não aos romanos, o que seria muito pouco, mas ao nosso egoísmo; vem desalojar-nos das posições cômodas e adquiridas. Como Deus é a única realidade, onde estiver Deus não pode estar o eu. Que será a humildade senão a capacidade de Deus?
     As predileções de Cristo não são, assim, muito lisonjeiras para o nosso amor próprio: " Hão de perseguir-vos e arrastar-vos, por sinagogas e cadeias, levando-vos à presença de reis e governantes, por causa do meu nome". As perseguições que estamos a presenciar são, pois, o normal, e outra coisa é que seria para estranhar. Ai de nós, que o mundo contemporizar com a Igreja...

CONCLUSÕES

     1.VEREMOS A SALVAÇÃO DE DEUS...A pureza da esperança é um modo de abnegação, porque é a fidelidade à nossa mais legítima grandeza. A sensualidade, egoísmo do corpo, e a soberba, egoísmo da alma, é que enredam os labirintos da nossa vontade, são o que nos tira a disponibilidade. Quem se despojar será receptivo, porque simples, honrado, bem intencionado, sem a rede oculta dos interesses criados, que tem medo de Deus. Foram eles que não deixaram os fariseus reconhecer o Messias, nascido no despojamento e na humildade do presépio.
     2. A TORRE DE BABEL. As doutrinas e sistemas que separam os homens, sobretudo atualmente, a destruição das idéias de bem e de mal e de virtude, a apologia da violência e do extermínio - que é tudo isso senão o ídolo excogitado e esculpido pelas ambições de cada um? Teremos o Messias que merecermos. A preparação para o Enviado, ou o noviciado da esperança, é tudo na alma do homem, porque ele é o princípio da felicidade ou da perdição. Ainda antes de sabermos que ele virá, o instinto moral já nos advertiu que " Aquele que há de vir " há de ser alguma coisa de sacrossanto e de muito alto; e que , para O acolhermos, devemos ser leais e puros conosco mesmos. A pregação de São João Batista é, pois, a voz da nossa própria consciência: " Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas Veredas ....""

sábado, 31 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Páscoa

Pe João Mendes S.J

     Os homens todos andam em busca de alegria, e tão poucos encontram! Porque tem medo ao risco de ir buscar onde ele está: do outro lado do sofrimento. Eis aí a divina aventura do cristão, a seríssima empresa da sua vida.
     É assim a alegria pascal: fruto da dor, alegria redimida, paz onde se encontram a pureza de alma e o amor verdadeiro. A grande festa do cristianismo, A Páscoa é a festa da alegria, mas da alegria purificada na verdade da vida, no grande encontro com Deus. " A alegria é a coisa mais séria deste mundo" disse o artista português ( Almada Negreiros). E, realmente, é num Domingo da Ressurreição, que melhor vemos e sentimos a razão dessas palavras.
     
1. O CRISTIANISMO É ALEGRIA...


     1. Porque é participação na vida de Deus, e essa vida é gloriosa. Ser cristão é escolher a eternidade, e vencer a morte. No batismo pedimos a vida eterna à porta da Igreja, começamos a ser divinos; e as nossas ações daí em diante serão humano-divinas, gloriosas portanto. É que a graça não é só um direito, e já um princípio; são as arras da glória eterna, a posse de Deus e do Céu, se bem que ainda às escuras na penumbra da fé, e nos domínios da dor e da morte. Daí o aspecto do alheamento e estranheza que o mundo sente diante do cristão convicto. É que escolheu a eternidade, renunciando aos prestígios do tempo. Tem que ser considerado estrangeiro.
     2. Porque tudo na vida cristã pode ser triunfo. Todas as dores e fracassos se podem transformar em vida divina. O Sangue de Cristo, derramado para redenção nossa, é realmente o elixir da eterna juventude que tão buscado foi pelos alquimistas antigos. Todos os fracassos e destinos falhados, até a ruína, transfigurados em valores divinos. E, se a vida só pode ter sentido e sabor, quando se desvanecer o aspecto da morte, nesse caso, ninguém mais desafogado e livre da fatalidade que o cristão. E foi esse sentimento de liberdade de espírito, diante de todas as fatalidades do mundo antigo, o que sentiram as primeiras gerações de seguidores de Cristo: desafogo perante o destino, pela decifração do absurdo.

2. MAS ALEGRIA CONQUISTADA

     1. Não é fácil a alegria cristã: não é nenhum dom gratuito que me seja entregue como a um príncipe privilegiado é entregue uma herança real. Tenho de a conquistar. E é esta a mais bela e mais gloriosa empresa da minha vida. A terrível seriedade da nossa alegria de cristãos, vem de que a participação na vida gloriosa de Deus é obtida mediante uma participação na Paixão de Cristo. A primitiva cerimônia do batismo por imersão era a sepultura do homem velho, da qual sairemos ressuscitados, juntamente com Cristo, para vivermos a novidade da vida cristã.

     2. Portanto, ser cristão é ser homem novo, resgatado e restaurado. É manter na alma o rejuvenescimento da primavera depois do inverno, da novidade depois da ruina, da verdade depois da mentira. É uma paz, ou satisfação das aspirações essenciais, em perpétua construção e conquista, com sabor de vitória.
     Mas, para ter paz no coração, aquela paz de Deus que ultrapassa todo o sentido, é preciso manter a verdade da vida, numa longa e continuada fidelidade. É o que nos pede S. Paulo na Epístola da missa de Hoje: " purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, uma vez que sois ázimos. Não foi Cristo imolado, ele é nossa Páscoa? E assim, banqueteemo-nos, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. A nossa alegria é, pois, um gozo redimido nos sofrimentos de Cristo, uma luz de pureza e autenticidade, isenção do que é velho, mundano, e mentiroso, ázimos de sinceridade e de verdade.

CONCLUSÕES

     1. A vaidade de ser triste, tão comum aos românticos, e a todos os homens na medida em que todos temos alguma coisa de romântico, essa maneira de se propor como excepcional pelo sofrimento, é um dos estados de alma menos cristãos. Se tudo, na vida do discípulo de Cristo, é triunfo, e triunfo para a eternidade, como poderá ele comprazer-se de tristeza? Os homens excepcionais não tem fatalmente um destino heróico da tragédia, como queria o paganismo antigo; mas são aqueles que chegam à simplicidade e à humildade de sempre se julgarem felizes. O soberbo é trágico porque julga que todo o êxito lhe é devido, e o humilde é alegre, porque aceita a vida e os acontecimentos.
     2. As ascensões do coração. Depois dum bem alcançado é preciso procurar outro maior, porque só assim rejuvenesce a alegria, e vai caindo o que é velho. O motivo porque tantos, no princípio da conversão, vivem felizes, e depois perdem o gosto e a paz de Deus, é porque deixaram cansar o amor na rotina dos bens iguais; ou por outra: porque deixaram de tender so bem maior e de morrer ao que é pequeno. Para ser feliz é preciso renovar-se continuamente, com um ideal e uma doação sempre novos. Daí que conquistar a alegria seja o mesmo que conquistar a perfeição: ir subindo sempre a montanha cujos cimos vão sempre fugindo. E não se cansar, nem desistir da subida. Porque a alegria, com perfeição, não tem nível certo, ou altura marcada. É uma pureza, gozosa mas instável, que se vai criando, em altitudes, cada vez mais elevadas. Só assim seremos ázimos de sinceridade e verdade, repassados de Deus e de sua Luz beatificante.

sábado, 24 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Ramos

Pe. João Mendes S.J

     O triunfo de Cristo, que no Evangelho de hoje se comemora, é um contraste perfeito com as discussões de domingo passado. Aí, era a má vontade e falta de clareza interior, perante a luz divina que se propõe ao coração do homem: " Amaram os homens mais as trevas do que a luz".
     Hoje, as almas dos simples e dos bem intencionados, recebem e aclamam " o que vem em nome do Senhor". Neste erguer de ramos de palma e de oliveira, tudo tem o caráter espontâneo do que floresce naturalmente: são corações que se abrem.

1 O TRIUNFO DE CRISTO É A HUMILDADE E MANSIDÃO

     1. Os triunfadores deste mundo, os homens que arrastam as multidões, lançam mão do aparato exterior, dos grandes lances e abalam os nervos. Levam-nos após a si, atraídos pelo efeito espetacular de grandes paradas, desfiles armados, clarins, bandeiras. Aqueles mesmos que têm dotes pessoais de atração sedutora parece que são possuidores de uma espécie de magnetismo que é mais senhor dos nossos nervos que daquele amor profundo que deseja puramente o bem melhor. Há qualquer coisa de falso e traiçoeiro na sedução que os grandes homens exercem sobre os nossos entusiasmos delirantes. Não entram pela porta do redil, que é a aspiração profunda ao bem sem limites; não são ele o Bom Pastor, mas sim, lobos suspeitos.

     2. O triunfo de Cristo tem caráter autêntico da naturalidade: espontâneo, simples, como uma flor se abre ao sol ou um coração se rende ao amor. Nos antigos triunfos romanos, um escravo ia dizendo ao ouvido do triunfador para que a glória o não embriagasse: " lembra-te que és homem!". Agora, diz Bossuet, é necessário que lhe digamos: " Lembra-te que és Deus". Ausência absoluta de tudo o que seja espetacular, ou para causar efeito: o Senhor montado simplesmente num jumentinho, sem mais alarde que os atrativos da sua Pessoa Divina; e à volta, a aclamação das crianças, de cuja boca sai o louvor acabado, e dos discípulos e populares, cuja alma simples, não amarga pela inveja dos fariseus, reconhece, instintivamente, onde está a fonte que jorra para a vida eterna. Tudo familiar, suave, pacífico; e aqueles ramos de palma e oliveira dir-se-ia brotarem, tão naturalmente, como uma primavera de amor entusiasta, nas almas bem formadas.

2. MAS IRREPRIMÍVEL, PORQUE FUNDADO NO AMOR

     1. Donde vem o ressentimento, Cristo foi, no conjunto da sua missão, mal recebido pelos homens; " e os seus não o receberam". É que Ele vem trazer a espada e a guerra, separar oa pais dos filhos, e os irmãos dos irmãos: é uma mensagem incômoda que o homem velho não perdoa, e que o leva a juntar-se aos escribas e fariseus: " Fora! Fora!". Mas as exigências de Cristo não são mais do que correlativo das nossas ambições desmedidas. Precisamente porque nós ambicionamos muito mais do que os limites deste mundo, é que o Senhor tem de nos dizer que desapeguemos do que é pobre e limitado. E assim, se nós não fossemos tão excessivos no amor, não seria Cristo tão implacável no que nos pede. A cruz nasce da terrível seriedade e profundeza do nosso amor exigente. E por isso, quando as exigências de Cristo se encontram com as ambições do homem então, somos santos e felizes.
     2. Donde vem a aclamação. Vem de que, nas almas, há alguma coisa de mais fundo que os ressentimentos do homem velho, uma verdade que aclama Cristo e necessita Dele . Para além das nossas maldades e do miserável apego às pobres alegrias da terra, lateja, doloridamente, a angústia essencial da nossa pobreza de amor. Para além dos pequenos amores, queremos o Amor profundo o que não engane e sempre dure. E é por isso, que há, também, em nós, quem tome partido por Cristo e por sua bondade santa e exigente. " Hosana ao filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor" E quantas vezes, como agora na entrada de Jerusalém, o Mestre não é aclamado pelo que de mais puro existe no coração do homem! Que são, por exemplo, as grandes manifestações mundiais dos congressos Eucarísticos, em meio do materialismo trepídante da vida moderna, senão o triunfo, suave e bondoso, do Rei que vem a nós na mansidão invencível do seu amor?!

CONCLUSÕES

     1. O nosso Chefe. Todos nós desejamos alguém a quem seguir e a quem nos possamos entregar. Mas quem nos dará o triunfo perfeito? Sejamos fiéis a nós mesmos, entrando no grupo dos que aclamam a Cristo; juntemo-nos ao cortejo humilde e simples, fazendo da nossa vida, uma fidelidade ao Bem autêntico e sem encarecimentos. O homem velho prefere os triunfadores espetaculares. Deixemos os efeitos fáceis, e firmemos a vida na verdade do Amor.
     2. O êxito da Vida. Colocaremos, assim, o êxito e o triunfo pessoal a que todo o homem aspira, para além da segurança aparente com que nos apoiam os aplausos do homem. Estes podem dar-nos a ilusão momentânea de que nos fazem maiores; mas quando nos faltam, logo vemos o logro e o desamparo. Cada um é o que é diante de Deus, e mais nada. É vivermos para dentro e para o profundo, em demanda do reino de sombra da humildade simples, onde nasce o rei da Glória.

sábado, 17 de março de 2018

Meditação para o Domingo da Paixão

Pe João Mendes S.J

     O Evangelho deste domingo é um dos episódios culminantes da luta de Cristo com os fariseus, desse fundo desentendimento das vontades humanas perante a Luz, que levou Israel a não aceitar o Redentor e a crucificá-lo. Cristo não discute só com os doutores da lei, mas com os sofismas de todos os homens que amam mais as trevas do que a luz, e que tem medo de Deus e de suas exigências sobrenaturais.
     Na variedade de ideias e incidentes da polemica referida no Evangelho, salientam-se duas linhas gerais, relativas, consequentemente, ao problema da Fé: Cristo vive, intimamente unido ao Pai, cuja glória procura, e cuja doutrina reflete fielmente. E os Fariseus, porque não são de Deus, também, por isso, não ouvem a Cristo que a Deus está unido.

1. CRISTO É " DE DEUS"

     1. A santidade de Cristo. Os fariseus acusavam a Cristo de estar possesso do demônio. Mas o Senhor desafia-os, com segurança divina, a que O acusem de pecado. E como poderiam fazê-lo, se Ele só procura a Glória de Deus, à qual se doou numa consagração perfeita? E é essa pureza absoluta de intenções, esse desprendimento generosíssimo e piedoso, que reverte de Deus Pai para seu Filho, transformando num testemunho de santidade e de verdade. Diante dos Santos, sentimos a proximidade do eterno e do definitivo, da segurança e do amor, - precisamente, porque, neles, o homem se apagou, e adere puramente a Deus, enchendo-se de uma verdade e de uma presença divinas, que os impõe por si mesmos. Devia ter sido assim, e incomparavelmente mais, com N.S Jesus Cristo.
     2. A doutrina de Cristo apresenta o mesmo ar de autenticidade: doutrina pura, impecável, como a do sermão da montanha, que não lisonjeia nenhuma paixão. O Redentor não é mais do que a testemunha do que ouviu do Pai; e se disser que O não conhece, será, como os fariseus, mentiroso. Por isso é que quem ouvir as suas palavras e as guardar, ficará, para sempre, isento da morte. É como se o Senhor dissesse: nas doutrinas e sistemas dos homens, quantos interesses escondidos! justamente, porque essas doutrinas nasceram, os mais das vezes, para justificar-lhes o proceder. Mas com Ele, não é assim. Os seus ensinamentos procedem da fonte mesma da verdade e da vida, sem traição nem desvio, porque Ele está unido ao Pai, com sinceridade puríssima.

2. OS FARISEUS PORQUE NÃO SÃO DE DEUS REJEITAM A CRISTO

     1. O que é ser << ex Deo>>, ou << ex veritate>>. É estar persuadido que a Verdade é santa, porque se confunde com o bem; que a Verdade não é mero pábulo da curiosidade intelectual, e que só nos deve servir para sermos bons. Que utilidade teriam sistemas, e filosofias, e criticas, se não nos ajudassem a vivermos mais humanamente, e sermos melhores?
     A Verdade adquire, assim, caráter sagrado; não pode, portanto, comparecer, diante de nós, como um réu; mas nós é que devemos buscá-la como à razão de ser da nossa vida; como alguma coisa de sacrossanto, que se procura com amor, com pureza, e com infinito respeito. E como a Verdade se confunde, objetivamente, com o Bem, se queremos um atalho para a luz, comecemos por ser, lealmente, bons. Mas como posso eu, sem conhecer explicitamente a Verdade, saber onde está o bem? Pois por certo instinto da consciência, por um raciocínio que anda implícito na nossa vida, e que até os ignorantes e incultos apreendem, por uma espécie de conaturalidade com o Bem verdadeiro. É isto ser de Deus e ser da Verdade.
     2. Os fariseus rejeitaram a Cristo, porque iludiam o puro instinto do Bem; porque tinham o coração cheio de enigmas e desvãos, e de secretas alianças com o mal. Era isso o que os levava a fixarem-se de preferência nas razões que poderiam ter contra Cristo.
     A Verdade, quase sempre nos aparece com algumas sombras; ou por outra: a revelação de Deus não é necessitante. Nesse caso, porque hei de me fixar, de preferência, nas razões positivas e não nas dificuldades? É porque a isso me inclina o sacrário interior da minha vida; o peso e a delicadeza da minha sinceridade última; o pertencer, por natureza, ao partido do Bem e da Bondade; e o não poder ser perfeitamente bom. Se não ao lado de Deus, entregando-me numa doação de amor total. Se não tiver parcialidade pelo bem, não chegarei à Verdade.

CONCLUSÕES

     1. O Pecado contra a luz. Se tivermos algum empenho ou inclinação subconsciente para fugirmos ás verdades da Fé, então, todas as dificuldades e obscuridades nos servirão de pretexto, e por essas fendas se introduzirão, furtivamente, com a aparência de razões fortes, todas as nossas oposições inconfessáveis. E se tivermos, à raiz mesma do coração e da sinceridade, uma vontade essencial de sermos bons, então, esteremos de acordo com Deus; e todas as objeções admitem uma explicação.
     Mas, por mais bem intencionadas e desapaixonadas que julguemos ser ao nosso ponderar as razões, poderemos sustentar, de ânimo tranquilo, o olhar rigoroso da consciência? teremos a garantia absoluta, de que, nos movimentos mais radiculares da vontade, não houve nenhuma fuga para outros interesses? que tivemos de boa vontade sem liga nem mistura? quer dizer: que fomos santos e não encontramos a luz?
     2. A empresa máxima da vida,  o grande acerto da existência, consiste em que, em nós, o desejo da Verdade coincida com o desejo do bem. Na medida em que não coincidirem, pecamos contra a luz. Quem for sincero com a própria consciência, ouve a voz de Deus, põe-se de acordo com Cristo. po isso, quem é de Deus ouve a Cristo que é de Deus: << O que crê no Filho de Deus, tem o testemunho de Deus em si mesmo>>. E é esse o problema que vai até a raiz do nosso ser, até ao âmago da consciência, enquanto ela é a voz do nosso destino. A conquista da verdade pelo amor sutêntico é a formidável empresa de nossa vida.

sábado, 10 de março de 2018

Meditação para o 4° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O Evangelho da multiplicação dos pães leva-nos, naturalmente, e por indicação de todos os comentadores, a falar da Eucaristia. O mesmo S. João quando relata o milagre, apresenta-o como uma especie de introdução ao sermão eucarístico de Cafarnaum.
     A Eucaristia é, pois, o alimento que Deus dá ao homem que segue a Cristo, o viático reconfortante da alma destinada à Glória da Vida Trinitária. Entre diversos aspectos deste mistério, hoje tomaremos o que parece mais obvio para o tempo da quaresma: a Eucaristia como alimento.

1. A EUCARISTIA É O ALIMENTO DA VIDA SOBRENATURAL...

     1. O processo da nossa vivificação sobrenatural, ou como é que a Eucaristia nos alimenta. Ensinou-o Nosso Senhor no sermão eucarístico que seguiu um dos milagres da multiplicação dos pães: " Assim como meu Pai me enviou, e eu vivo por ele que é a fonte da vida, assim aquele que se alimenta de mim, por mim viverá." (Jo 6,58) . Quer dizer: o Pai que é o princípio da vida, comunica-a ao Filho, unido, hipostaticamente à natureza humana de Cristo. Esta, divinizada intrinsecamente pela vida mesma de Deus, comunica-se ao homem em alimento, transmite-lhe essa mesma vida divina do Pai. Assim como a mãe - a comparação é de Santo Agostinho - assimila os alimentos e os dá depois ao filho pequenino, transformados em leite, assim Cristo recebe em si a divindade que, assimilada pelo seu corpo, já pode agora servir-nos de sustento. Não poderíamos alimentar-nos, diretamente, de Deus, se Cristo o não tivesse posto ao nosso alcance, em sua carne sacrificada.

     2. Como pode divinizar-nos um corpo material? Pode, porque o instrumento, unido à causa superior que o maneja, é elevado na sua ação. Assim, o pincel, quando manejado por um artista, pode realizar um efeito espiritual, que está muito acima da sua própria essência material. De modo parecido: a carne de Cristo, unida à Divindade do Verbo, é elevada, sobrenaturalmente, na sua ação, e pode, transformando-se num alimento divino, realizar o efeito divino da nossa vida sobrenatural.
     Com uma diferença dos outros alimentos. É que estes assimilamo-los nós à nossa própria natureza; mas este, como é tão forte, é ele que nos assimila; como um enxerto que chama a si, para as transformar, as seivas da árvore em que foi garfado. Somos nós que nos divinizamos, e não Deus que se humaniza quando d'ele nos alimentamos.

2. ...QUE SÓ É ASSIMILADO POR QUEM TIVER FÉ E CARIDADE

     1. A Fé. A Eucaristia é o "mysterium fidei" por excelência. Para que se possa assimilar qualquer alimento, é preciso que haja certa proporção entre o alimento e o organismo que o recebe; temos que possuir orgãos capazes de fazerem nosso o que comemos. Há de haver, pois, alguma semelhança prévia entre o organismo e o alimento. Como poderíamos nós assimilar-nos uma pedra? Portanto para fazermos nosso o alimento divino, temos de ser, de algum modo divinos, temos de possuir um organismo sobrenatural. Esse organismo e a graça com seus orgãos, sobretudo a Fé e a Caridade. Assim, o pagão que comungasse, receberia um alimento meramente natural, a carne de Cristo, cuja divindade seria inútil a um organismo meramente humano. Não haveria contato vital com Cristo Deus, mas somente com o Cristo Homem.
     2. Caridade e pureza de vida. A caridade é a vida e a saúde sobrenatural da alma. Como na vida natural, se os orgãos estão paralisados ou entorpecidos, não se faz assimilação - assim, na vida de Deus. O doente que se alimentasse de comidas fortes só se prejudicaria com elas; e a alma que receber a Cristo sem saúde sobrenatural, em vez de se fortalecer, piora: " Quem comer deste pão ou beber deste cálice do senhor indignamente, será réu do corpo e sangue do Senhor" (1 cor 11,27) .

CONCLUSÕES

     1. A Eucaristia requer preparação. O alimento será tanto melhor recebido e assimilado quanto mais no organismo houver vitalidade, saúde e apetite de o receber. Por isso, se não sentimos todos os frutos de vida eterna, que seriam de esperar da Eucaristia, vejamos se não será por falta de preparação e de disposição. S. Luis Gonzaga passava metade da semana a preparar-se, e a outra metade a dar graças. E não era demais. Porque: haverá acontecimento de maior transcendência na nossa vida?
     2. Qual a preparação? Sobretudo a da fé e a do amor. Como é um alimento sobrenatural, tanto mais o apreciaremos quanto o nosso olhar sobrenatural vencer os acidentes exteriores que nos ocultam a Cristo, e nos familiarizar com o mundo de Deus. E para termos, na caridade ardente, o apetite de Deus, procuremos, na pureza da vida, o gosto das coisas do céu, e do mundo sobrenatural. Sejamos como os que seguiam a Cristo no deserto, presos da sua palavra; e sentiremos, então, que a Eucaristia é, verdadeiramente, o pão do nosso espírito.                    

sábado, 3 de março de 2018

Meditação para o 3° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     A perícopa que se lê no evangelho de hoje é muito variada. Conta-nos primeiro a cura do demônio mudo- e daí que se costume falar da confissão neste domingo. Vem, depois, o processo de ruína das recaídas no pecado. E finalmente, diante da doutrina do Mestre, há uma mulherzinha que levanta a voz, de entre multidão, para louvar a Mãe que tal filho deu ao mundo. E o Senhor emenda o elogio, fazendo-se reverter, não tanto para os que tenham boa doutrina, quanto para os que, ouvindo a palavra de Deus, a ponham por obra.
     Todas estas ideias se poderão, talvez, agrupar à volta da noção de católico prático.

1. A CASA DOS SETE DEMÔNIOS

     1. Recair é abusar da graça e da misericórdia. A primeira culpa é fruto da ignorância, da fragilidade e da surpresa. Mas as recaídas, normalmente, já não têm as mesmas desculpas, porque o homem já conhecia, tanto a própria fraqueza como a desilusão que é o pecado. Mas houve uma presunção, ou falsa segurança, de quem julga que pode manter-se imune das ocasiões de perigo; e ao mesmo tempo, um pequeno raciocínio, ofensivo da misericórdia de Deus: "Pequei, e que mal me veio daí?" ( Eccl 5,4) . E como o Senhor disse que perdoaria setenta vezes sete, o pecador anima-se a ofendê-lo mais tarde. É o católico " não praticante", ou a tentativa de servir a dois senhores, e de os enganar a ambos.
     2. Recair é escravizar-se a maus amos. Quando o demônio volta à alma que uma vez pecou, e se arrependeu depois, encontra-a tão nova e regenerada como se acabasse de ser criada. Mas traz, consigo, outros sete espíritos piores que o espíritos da primeira culpa. Sete significa número perfeito; aqui, o poder, em pleno, do mal. É que as recaídas são o forjar de algemas com que a alma trabalha para a sua própria escravidão. Os sete demônios são piores que o primeiro, porque são os maus hábitos que nos acorrentam, junto com as graças de Deus que se desmerecem. Sobretudo em certos pecados, como o da impureza, mau é começar. Perdeu-se o brio e o pundonor da integridade que era uma grande força; depois, já parece que um pouco mais ou um pouco menos não trará grande mal; e adquire-se o pendor ou a facilidade de cair que é a pior das fatalidades.

2. FELIZES DOS QUE OUVEM E GUARDAM

     1. Porque conhecem a Deus e se lhe assemelham. A palavra de Deus é uma segunda encarnação, diz Bossuet, comentando a Origenes e a Santo Agostinho. Porquanto, devendo Cristo mostrar-se a todos os homens, e não o tendo feito na verdade da sua carne, fá-lo na verdade da sua palavra. Com o interesse de Zaqueu, subindo a uma árvore para ver passar a Cristo, procuremos também vê-lo, na pregação dos seus Apóstolos.

     Mas, se além de vermos, guardamos, então, assemelhamo-nos ao Divino Exemplar da nossa Divinização. Cumprir a palavra de Cristo faz-nos parecidos ao Pai do Céu, dá-nos traços e feições de família. De tal modo, que se, por absurdo, a maternidade divina não trouxesse consigo a assimilação moral, cumprir a palavra do Senhor seria parentesco mais íntimo que ser mãe de Deus. Foi o que o Mestre confirmou, no lugar paralelo de S. Matheus: " O que fizer a vontade de meu Pai que está no céu, esse é que é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe." ( Mat 12,50).
     2. Porque o amor liberta. A fidelidade à Lei, quando é adesão amorosa e não simples formalismo, liberta a alma, e renova-lhe o entusiasmo. Praticar, ser dócil à atração do bem maior, é ver e sentir que o senhor é bom e que vale a pena servi-lo. O amor renova-se com as delicadezas da fidelidade e com a experiência das doações generosas. O motivo por que, muitas vezes, se cai na rotina estéril, é porque se para na generosidade. Se tendermos ao bem maior, o amor transforma-se numa conquista insaciável do Sumo Bem, e encontra, em si mesmo, a alegria que o leve a novas ascensões do coração.
     O católico " não praticante" julga que pode abraçar a Deus e ao mundo, e que encontra a liberdade de movimentos na sua situação dúbia. Mas em vão; porque ninguém pode servir a dois senhores, e porque o verdadeiro desafogo conquista-se na fidelidade ao amor.

CONCLUSÕES

     1. O católico " não praticante". Aí, está uma expressão que muitas vezes se ouve, e que não faz grande sentido. Aquele que " não pratica", no mundo atual, é um contra senso, porque as situações extremas tendem a agravar-se, portanto e esclarecer-se. Em tempos apocalípticos como os nossos, o "não praticante", é um absurdo que a lógica da vida rejeita. Mas em qualquer época, pensar de uma maneira e viver de outra, será sempre hipocrisia e falta de caráter, onde quem acaba por sofrer são as ideias, já que a vida é mais forte do que elas. Este ilogismo, prático, esta ausência de sinceridade para com a verdade, é o caminho mais suave e mais certo para a tristeza moral, para o fastio e para a descrença.
     2. Confissão contrita e sincera. O grande remédio para pormos coerência na nossa vida, é a confissão bem feita, porque ela é, também, a grande prova da nossa sinceridade e boas disposições. Fora casos anormais, quem a sério se arrepende, propõe-se, também a sério, fugir das ocasiões de pecado; e, com certeza, melhora a vida. De maneira que, se caímos na indolência para examinarmos as nossas confissões; porque é muito possível que não sejam sinceras, e nos andemos a enganar a nós mesmos e ao confessor - a Deus, não. A confissão, bem persuadida, é primacial obreira de coerência psicológica e de reforma radical.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Meditação para o 2° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     Um dos maiores cuidados dos homens é o esplendor físico do corpo. Desporto, ginástica, higiene, - quanta solicitude e quanto entusiasmo em valer fisicamente, e em ser bem constituído! Para os Gregos, a elegância, a saúde, a agilidade e a força, eram essenciais para a perfeição humana.
     E tudo isto tem razão de ser. Pois que, sendo nós espírito e matéria, só haverá homem perfeito quando o corpo o for também. O Evangelho da transfiguração, do domingo de hoje, pode até considerar-se, paradoxalmente, neste tempo da Quaresma e da penitência, como o triunfo da carne. Só que o cristão, admitindo o princípio de que devemos ter um corpo perfeito, acrescenta outra verdade e faz mudar a perspectiva de todas estas preocupações: o triunfo do corpo, a plena transfiguração da sua fraqueza, obtém-se mediante a graça. A transfiguração de Cristo é, pois, o penhor e o modelo da nossa transfiguração.

1. A TRANSFIGURAÇÃO DE CRISTO

     1. A humilhação do Verbo Encarnado. Normalmente, Cristo devia ter um corpo glorioso, como mostrou agora a Transfiguração, e como mostrará, depois, na Ressurreição. Mas " apesar de possuir a natureza divina..., aniquilou a sua grandeza, escolhendo a condição de escravo, e aparecendo, como simples homem, entre os outros homens." ( Fil 2,6) . É esta humilhação do Verbo Encarnado, que, se enquanto Deus, se não podia abater, enquanto Deus Encarnado podia tomar a condição de escravo. É fê-lo, por comiseração, solidariedade, zelo e imolação. Vindo, á sua família humana decaída, a reparar uma culpa soberba, a ensinar o caminho da humildade, e a resgatar-nos pela cruz, escolheu, por simpatia conosco, o abatimento e a dor, para que tivéssemos um pontífice compassivo e solidário das nossas misérias, e um Mestre que ensinasse mais com o exemplo do que com palavras..
     2. A transfiguração do Verbo Encarnado. Mas a humilhação era estado violento para Cristo. Porque: possuindo sua alma a visão beatífica, esta não podia deixar de iluminar de glória a sua humanidade de filho de Adão. A luz da Trindade tenderia, necessariamente, a transfigurar o seu corpo divino, como o sol incendeia o cristal em que incide. E a plenitude de vida divina, empolgando a pobre natureza humana, não podia deixar de a sublimar, de a espiritualizar, e de a glorificar; numa palavra: de lhe conferir os dotes do corpo glorioso. A Transfiguração não é, pois, em rigor, nenhum milagre nem nenhum estado extraordinário, mas a volta de Jesus, momentaneamente, à naturalidade da sua condição. É Deus que transparece no homem.

2. A TRANSFIGURAÇÃO DO CRISTÃO

     1. A miséria do homem. O homem tem, por natureza, o que Cristo tinha por livre escolha: sofremos, adoecemos e somos defeituosos, morremos por fim. E é contra esta fatalidade que nos persegue e angustia, que a ciência se lança com todos os seus esforços. Quem conseguirá vencer a dor? Quando aparecerá o homem perfeito?
     Esforços vãos, os da medicina e da indústria humana...Poderá restringir-se o domínio da doença, dilatar-se alguns anos o limite da vida - mas que é isso, senão um excitante mais, para mais sofregamente amarmos a plenitude da vida, e mais sofremos violência de tudo o que a ameaça? A empresa nunca será totalmente eficaz, porque a dor e a morte são consequências do pecado. Portanto o remédio também terá de ser de ordem sobrenatural. A vitória sobre o sofrimento está na Graça de Deus que é vida Divina, imortal e gloriosa.

     2. A transfiguração do homem. "esperamos um salvador que é Nosso Senhor Jesus Cristo, e que reformará o corpo da nossa humildade, configurado pelo corpo da sua glória" ( Fil 3,20) . De modo que a nossa transfiguração não é imediata, mas a demorada empresa da nossa vida, a conquista do sobrenatural, realizada no aferro da esperança, a ao preço das dores corajosamente aceites.
     É demorado e fica longe, mas é total e decisivo: libertamo-nos da miséria do poder do nosso corpo, deificando-nos! podíamos aspirar a mais? E então, quando aparecer realmente o que somos, a glória de Deus será o nosso próprio esplendor, a agilidade e sutileza serão a libertação deste nosso peso morto e matéria, e a impassibilidade nos fará divinamente inacessíveis ao sofrimento!

CONCLUSÕES

     1. A vida naturalista é portanto, a impaciência dos fracos, a desesperada sofreguidão de nos transfigurarmos de qualquer modo, e pelos meios mais à mão. No fundo, é a preguiça da verdadeira superação. E certas doutrinas de filósofos e sábios o que fazem é mascarar os pretextos dessa preguiça dando-lhes aparência de esforço e até de heroísmo. A arte laica tem sido a mais séria tentativa de transfiguração do homem pelos seus próprios recursos. Mas são tudo caminhos inoperantes, desvios e fugas do que é difícil, mas definitivo: "Esperamos um Salvador"
     2. O homem perfeito, neste mundo, pode ser, portanto, aquele que a sociedade rejeita como inútil e indesejável. O leproso, que é arredado para a gafaria, o paralítico, que parece a imagem da inutilidade e do estorvo, até o monstro, que inspira repulsa, todos, se levarem a sua dor, de olhos em Cristo, podem ser, desde já, homens perfeitos. Porque, coisa maravilhosa! Podem possuir, pela graça, o penhor de uma transfiguração muito mais gloriosa do que a daqueles que se ufanam de serem integralmente sãos e sem defeito. A dor e a doença tornam-se, pois, obreiras de beleza física, mediante uma esperança em Cristo: " esperamos um Salvador"

sábado, 20 de janeiro de 2018

Meditação Para o 3° Domingo Após a Epifania

Pe João Mendes SJ

     O  Evangelho relata a cura de dois doentes, dois milagres alcançados pela Fé, mas por uma fé mais profunda e viva, no segundo que no primeiro caso. O leproso aproxima-se de Jesus e expõe~lhe o seu mal, como uma oração tão simples como eficaz. O Senhor toca-o, e ele fica limpo de toda a lepra.
     Depois vem o centurião, e sem exigir a presença de Jesus, apela somente para o seu poder. E o Senhor realiza o milagre a distância. É que é sobretudo pela fé que Deus se nos torna presente, e que nós recebemos a eficácia do poder divino.

1. A FÉ TORNA-NOS RECEPTIVOS DO PODER DIVINO

     O milagre por contato. O leproso, o intocável, aquele de quem todos fugiam, pode, enfim, prostrar-se diante do homem que é Deus. Este, ao menos, não o teme nem lhe terá horror. Talvez o pobre gafo sentisse demasiada sofreguidão, e era bem natural, da presença física do Taumaturgo, e não discriminasse bem o objeto da sua confiança. Mas cria: "Senhor, se Vós quiserdes, podeis curar-me!". Ainda que a humanidade do Redentor seja instrumento da Divindade, contudo, para esta, formalmente, é que deve ir a nossa crença. A fé diz respeito ao Deus que se esconde e se revela no homem.
     Necessidade da fé. A presença de Cristo ser-nos-ia inútil se não acreditássemos na sua divindade. " Se crês...", " A tua fé te salvou...". E foi também a fé do leproso que o salvou: " Se quiserdes, podeis curar-me. - Quero. Sê Curado!". Muitos viram e ouviram a Cristo, muitos lhe tocaram e foram d'Ele tocados, e ficaram como antes. "Mestre, toda esta gente te aperta e importuna, como dizes que alguém te tocou?". É que entre tantos, era a hemorroíssa quem tinha a fé verdadeira; só essa foi receptiva da ação divina. Em Nazaré, Cristo não praticou milagres. Porque não pudesse? Não, mas porque os seus conterrâneos o tomavam simplesmente como um dos seus, " O Filho do carpinteiro", e não criam no Deus o culto. É como na Eucaristia: o pagão que comungasse, só receberia o alimento material dum corpo humano sacrificado. Assim no convívio de Cristo: se não tivermos fé, Ele será para nós como um homem qualquer.

2. PORQUE É O PRIMEIRO CONTATO COM O MUNDO SOBRENATURAL

     O milagre à distância. O Centurião não requer a presença física de Jesus: "Dizei uma só palavra, e o meu servo será curado". Como se dissesse: há outro modo mais íntimo de Deus aproximar-se dos homens e os homens d'Ele. E Nosso Senhor elogia, entusiasticamente aquela fé que não tinha igual em Israel. E a Igreja tornou as palavras daquele que, ainda há pouco, era simples pagão, para as aplicar ao "misterium fidei" por excelência.
     Contato com Deus pela fé. Não é preciso a presença física de Cristo, porque a crença sobrenatural é já o nosso primeiro contato com o mundo de Deus. A luz da fé não é mais que a própria luz íntima do Senhor, a luz inacessível que ele habita, enquanto comunicada ao homem; é conhecermos, quanto nos é dado agora, os arcanos de Deus, a sua Trindade de Pessoas, mediante a revelação do Verbo Encarnado. Quando, para além do que vêem os olhos e do que vê a razão, a nossa alma adere à realidades sobrenaturais, saimos do mundo das aparências, entramos no mundo de Deus, iluminados diretamente da sua luz, ainda na obscuridade do mundo dos sentidos, mundo dos enigmas e das sombras, mas vendo já, e possuindo, em princípio, a glória divina. " Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e aquele que nos enviaste, Cristo Jesus"
     É assim que as almas animadas de fé viva dir-se-ia tocarem no mundo sobrenatural, tê-lo presente, senti-lo e respirá-lo. Por isso, quanto mais fé mais união com Deus e mais caridade. O Centurião estava, talvez, muito mais próximo de Cristo do que o leproso ajoelhado diante d'Ele. O que nos torna presentes ao Salvador, e a Ele presente a nós, é a união que tivermos com Ele, pela Fé e pela Caridade.

CONCLUSÃO

     A presença de Cristo. Quantos de nós, alguma vez, não teremos sentido pena de não ter visto e tocado a Nosso Senhor Jesus Cristo, quando passou na Terra. Mas, pela fé, podemos corrigir o atraso do tempo e a distância do espaço, e sermos mais presentes ao Redentor do que os contemporâneos. Não é a presença corporal o que nos une com Ele e com a sua Divindade, mas o convívio sobrenatural da crença.
     E o Reino dos Céus ainda está suspenso sobre nós, atualmente. A mensagem e a vida de Cristo continuam à espera da nossa adesão, como se o Senhor nos perguntasse também a nós: " E  vós? quem dizeis que eu sou?" Trata-se de um toque assimilador, de fazer descer a vida de Deus. Esse vínculo misterioso, parentesco divino e nó de eternidade, é a Fé.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Meditação para o 2° Domingo após a Epifania

Pe João Mendes SJ

         A presença de Cristo nas Bodas de Caná é comovedora de condescendência humana. Fala-nos a história de muitos casos de Príncipes e grandes que honraram com sua presença as bodas dos servos. Mas que venham Deus e sua Mãe a tomar parte nas alegrias festivas do amor humano ... louvada seja a sua bondade.
       Que íntimo sentimento de carinho fraterno, o do Coração de Jesus, trazendo a sua sagrada presença de Filho da Família Divina ao banquete da família humana. Porque terá ido o Verbo Encarnado ao humilde festim de um casamento?

1. A TRINDADE

      Eis o grande mistério: Deus é Família! Afirmação esta podia causar-nos estranheza. Então, a vida íntima e exclusiva de Deus é parecida com a nossa? Sim, é Verdade. Mas a pergunta admirada devia fazer-se em sentido inverso: como é que o Senhor consentiu que a nossa vida fosse parecida com a sua?
     Por Deus ser família é que nós, imagem sua, também somos. E Cristo vem de muito alto, de um abismo divino de pureza e de harmonia, para a pobre lareira esmorecida da nossa casa humana. Na Trindade, tudo é conhecimento, geração e amor, na Luz e na Santidade infinitas. Que vida de familia e que lar, onde Três pessoas distintas vivem da mesma natureza, infinitamente perfeita e infinitamente feliz! Que união, que intimidade, e que amor!..

2. EM NAZARÉ

     O Verbo Encarnado nasceu numa família. Quando a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade encarnou, podia ter aparecido entre nós, como homem adulto, sem as dependências, fraquezas e humilhações das crianças. Mas nasceu numa família, e a sua união com a natureza humana realizou-se num seio materno e num lar humano.
     Essa família, a Sagrada Família por antonomásia, como mais perfeita imagem da Trindade, foi uma família virginal, onde Cristo, virgem nasceu duma Virgem, desposada com esposo Virgem. Foi tudo espiritual e santo no nascimento do Verbo Encarnado.
     Mas apesar da santidade dos seus pais na terra, como eles eram, no entanto, pálida imagem da Vida Trinitária! Nosso Senhor Jesus Cristo é, assim, o traço de união entre a Família de Deus e a Família do homem.


3. EM CANÁ

     O Verbo Encarnado abençoa a família. A presença de Cristo, em Caná da Galiléia, mais que condescendência, é aprovação. O Verbo Encarnado vem honrar e dignificar a família humana. Vem trazer a Bênção de Deus ao que é sombra imperfeita dos esplendores da Trindade; vem purificar e sagrar um fogo doméstico, centelha do amor divino, que as paixões dos homens facilmente deixarão corromper e abafar nas cinzas do egoísmo.
     E levou o Senhor a sua simpatia compassiva a concorrer para a festa com o vinho miraculoso, símbolo da alegria sensível. Ele que gozava da alegria sem sombras, e do vinho, tão ovo e tão antigo, da Divindade felicíssima. Foi o Primeiro milagre do Messias. Como os seus olhos pousariam, com amor e indulgência, no júbilo dos dois esposos! Enquanto Deus, sabia muito bem o que era o amor e a família por essência; como homem, nascido entre homens, fazia que os sentimentos divinos, no seu coração de carne, se transformassem numa infinita condescendência.
     E desde então, desde que o Próprio Deus assistiu às Bodas do amor das suas criaturas, é que o casamento e a família se transfiguraram num mistério divino, e virão a ser um Sacramento ou fonte de graça.

CONCLUSÃO

     O Matrimônio é imagem da Trindade. O Verbo é a imagem perfeita do Pai; e do amor mútuo de ambos, procede o Espírito Santo, o Dom, o Amor personificado. Também na família humana, a esposa é o ideal, em que se revê o esposo; e do amor de ambos, tão alto que se desdobra m novos filhos de Deus, procede o dom supremo dos filhos, que são o amor personificado dos pais. Não há família perfeitamente constituída sem estes elementos.
     O Matrimônio é fonte de vida Trinitária. É que, a base da família, está a Nova Lei, um Sacramento. E o Sacramento é um sinal eficaz de graça, e a graça é uma comunicação de vida Divina. O matrimônio é , pois, coisa tão santa que espalha, na família, a mesma vida familiar de Deus, a sua vida Trinitária. E assim temos como lar cristão é já a imagem da Trindade, e mais que imagem, pequena célula divina da Jerusalém Celeste que é o corpo dos bem-aventurados. Como não há de a Igreja defender, ciosamente, a santidade e a indissolubilidade da família !!!


Sagrada Família de Nazaré guardai as nossas famílias !!!