Parvulus enim natus est nobis, et filius datus est nobis – “Nasceu-nos uma criança; foi-nos dado um filho” (Is 6, 9)
I. Considerai que ao fim de tantos séculos, depois de tantas
súplicas e suspiros, o Messias, a quem os santos Patriarcas e Profetas não
tinham sido dignos de verem, o Suspirado das gentes, o desejo das colinas
eternas, o nosso Salvador, já veio, já nasceu e já se deu todo a nós: O Filho
de Deus se fez pequenino, para nos fazer grandes; deu-se a nós, a fim de que
nós nos demos a Ele, veio mostrar-nos o seu amor a fim de que nós Lhe
respondamos com o nosso. Façamos-Lhe acolhida afetuosa, amemo-Lo e recorramos a
Ele em todas as nossas necessidades.
As crianças, diz São Bernardo, gostam de dar o que se lhes
pede. Jesus veio como criança para se nos mostrar todo inclinado e propenso a
comunicar-nos os seus bens. Se desejamos luz, Ele veio para nos iluminar. Se
queremos força para resistirmos aos inimigos, Ele veio exatamente para nos
confortar. Se queremos o perdão e a salvação, ei-Lo que veio para nos perdoar e
nos salvar. Se queremos, finalmente, o dom supremo do divino amor, Ele veio
para abrasar-nos o coração. É sobretudo para este fim que se fez criança. Quis
aparecer no meio de nós tanto mais amável, quanto mais pobre e humilde, quis
tirar-nos todo o temor e ganhar o nosso amor, como observa São Pedro Crisólogo.
Além disso, Jesus quis vir pequenino para ser de nós amado
com amor não somente de apreço, senão também de ternura. Todas as crianças
sabem ganhar o afeto de todos aqueles que as vêem; mas quem não amará com toda
a ternura a um Deus feito criancinha, necessitado de leite, tiritante de frio,
pobre, humilhado, abandonado; a um Deus que chora e está vagindo numa
manjedoura sobre a palha? Isso fez o amante São Francisco exclamar: Vinde amar
a um Deus feito criança, feito pobre, e tão amável que baixou do céu para se
dar todo a vós.
II. Ó meu Jesus, tão amável e de mim tão desprezado,
baixastes do céu, a fim de nos remirdes do inferno e Vos dardes todo a nós, e
nós, como temos podido desprezar-Vos tantas vezes e virar-Vos as costas? Ó
Deus, os homens mostram-se tão agradecidos às criaturas! Se alguém lhes faz
qualquer favor, se alguém vem de longe a visitá-los, se se lhes dá alguma
demonstração de afeto, não podem esquecê-lo e sentem-se obrigados a
retribuí-lo. E depois são tão ingratos para convosco, que sois o seu Deus, que
sois tão amável e que por seu amor não recusastes dar o sangue e a vida.
Mas, ai de mim, que tenho sido para convosco pior do que os
outros, por ter sido mais amado de Vós e mais ingrato a vosso amor. Ah! Se
tivésseis concedido a um herege, a um idólatra as graças que me dispensastes a
mim, ele se teria tornado santo, e eu Vos tenho ofendido. Por piedade, esquecei
as injúrias que Vos tenho feito. Mas, Vós já dissestes, que quando um pecador
se arrepende, não mais Vos lembrais de todos os ultrajes recebidos. Se em outro
tempo não Vos amei, para o futuro não quero senão amar-Vos. Vós Vos destes todo
a mim e eu Vos dou toda a minha vontade; com esta amo-Vos, amo-Vos, amo-Vos;
quero repetí-lo sempre: amo-Vos, amo-Vos. Repetindo isto quero viver, e assim
quero morrer, exalando o espírito com estas doces palavras nos lábios: Meu Deus,
amo-Vos. Desde o primeiro instante em que entrar na eternidade quero começar a
amar-Vos com um amor contínuo, que durará sempre, sem que eu possa ainda deixar
de Vos amar.
Entretanto, ó meu Senhor, meu único Bem e meu único Amor,
resolvo antepor a vossa vontade a qualquer querer meu. Ainda que me oferecessem
o mundo inteiro, não o quero. Não quero mais deixar de amar a quem tanto me tem
amado; não quero mais dar desgosto a quem merece da minha parte um amor
infinito. Ajudai-me, ó meu Jesus, com a vossa graça, a realizar este desejo. —
Maria, minha Rainha, é à vossa intercessão que me reconheço devedor de todas as
graças recebidas de Deus; não deixeis de interceder por mim. Vós que sois a Mãe
da perseverança, obtende-me a perseverança final.
_ Sto. Afonso Maria de Ligório_

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