sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte III



(Continuação das postagens anteriores: Parte I, Parte II.)

... nenhuma questão teológica estava envolvida ainda e os clérigos continuaram desinteressados.

Porém, durante a 16ª aparição, em 25 de março, festa da Anunciação, uma questão religiosa inevitável entrou nos acontecimentos dramáticos. Na manhã desse dia, Bernadete acordou muito cedo, com "grande desejo" de revisitar a gruta. Os pais fizeram-na esperar até as 5 horas da manhã, quando ela saiu com a família, seguida por um grupo grande de pessoas. Bernadete tinha ido a Massabielle todos os dias desde a última das aparições da quinzena, mas durante o que se chamou de "calmaria de três semanas" a aparição não se deixou ver. Desta vez, Aquero apareceu.

Embora os detalhes registrados divirjam quanto ao porquê, desta vez parece que Bernadete estava disposta a descobrir quem a Senhora era e lhe fez três vezes esta pergunta: "Senhora, quer ter a bondade de me dizer quem é, por favor?". Aquero começou a rir. Mas quando Bernadete repetiu a pergunta pela quarta vez, a Senhora parou de rir, sorriu e disse no dialeto Bigourdan as palavras atroadoras: "Que soy era Immaculada Concepción".

Ao ouvir isso, Bernadete levantou-se imediatamente e, seguida por um grande cortejo de pessoas ansiosas, apressou-se a voltar à cidade, repetindo as palavras em voz alta inúmeras vezes, a fim de não esquecê-las. Ao chegar à cidade, ela e um grupo de olhos arregalados irromperam na casa do padre Peyramale. Bernadete levantou os olhos para ele, que abaixou os seus para olhá-la e ela disse simplesmente: "Eu sou a Imaculada Conceição".

                                                                                      

Padre Peyramale ficou chocado, pois ali não só havia uma questão religiosa, mas uma questão religiosa importante, sobre a qual era impossível que a Bernadete analfabeta soubesse alguma coisa.

A questão é complicada, desagradável mesmo. Desde o século XIV, o dogma da Imaculada Conceição da Virgem Maria era fonte de controvérsias. Admitia-se que Jesus fora concebido de maneira imaculada, isto é, sem pecado, desde o momento da concepção. A questão era se Maria também fora concebida imaculada.

A Senhora havia finalmente se identificado como a "Imaculada Conceição"  o que significava que ela era, na verdade, a Santíssima Virgem Maria, Mãe do Salvador e Mãe de toda a Igreja Católica Romana também. Não há dúvida que Bernadete não entendia nada disso, pois o sentido teve de lhe ser explicado muitas vezes  e, antes de entrar para a escola local das Irmãs de Nevers, onde aprendeu a ler e escrever, ela nunca entendeu muito bem suas implicações.

                                                                                      

Durante algumas semanas, a gruta foi barricada pelas desgastadas autoridades, não tanto para desencorajar a devoção, mas para conter os problemas de imundície e saúde pública provocados por milhares de visitantes. A preocupação maior era com um surto de cólera.

Ninguém realmente sabia o que fazer sobre o lugar e iniciaram-se discussões calorosas entre as autoridades locais e os devotos sobre o que devia ser construído ali. Logo que a fonte começou a jorrar e curas foram relatadas, artesãos locais projetaram, para conter a água, um tanque equipado com canos de descarga e uma tábua para colocarem velas.

Fendas foram executadas na gruta, nas quais dinheiro podia ser inserido e depois recolhido e entregue  ao antes relutante padre Peyramale. Todos os dias era recitado o rosário e mais de cinqüenta pessoas alegaram ter visto a Virgem. Os devotos tornaram-se incontroláveis e, no início de maio, o prefeito de Tarbes ameaçou prender e pôr na cadeia todos os que "tivessem visões". O delegado de polícia de Lourdes confiscou todos os objetos votivos e, em junho, a gruta foi fechada, embora os muros fossem derrubados diversas vezes por devotos vigorosos.

Enquanto essas dificuldades continuavam sem solução, a notícia da aparição da Virgem Santíssima e da água milagrosa se espalhou por toda a França.

Um acaso acabou por solucionar as dificuldades. Em meados de agosto, a família imperial estava na residência de verão, em Biarritz, a apenas 150 quilômetros de Lourdes. Ali, o príncipe imperial, filho do imperador Napoleão III, então com 2 anos de idade, "contraiu perigosa insolação acompanhada da ameaça de meningite".

O imperador ou, é mais provável, a imperatriz enviou a preceptora do infante a Lourdes, onde ela falou primeiro com padre Peyramale e depois com Bernadete. A preceptora foi, então, até a gruta e, em nome do imperador, ordenou que os guardas enchessem um garrafão com a água, tirando-a o mais de perto possível do centro da fonte. Os guardas esforçaram-se ao máximo para cumprir essas ordens. O infante real foi borrifado várias vezes com a água e prontamente se recuperou.

Em outubro, cheio de gratidão, o imperador Napoleão III em pessoa ordenou que os funcionários de Tarbes e Lourdes removessem permanentemente as barricadas em volta da gruta  o que era mais que uma sugestão para não interferir no acesso público a ela.

Em novembro, o bispo de Tarbes nomeou uma comissão de inquérito que levou quatro anos para realizar todas as suas audiências. Além das questões teológicas envolvidas, a comissão levou, sem dúvida, em conta o interesse decisivo do imperador, as oferendas abundantes e as crescentes vendas de imagens votivas. "Desde o início" a comissão "ficou profundamente impressionada" com a sinceridade de Bernadete e sua "firmeza e lucidez".

Em 1862, monsenhor Laurence, bispo de Tarbes, publicou a conclusão esperada:

"Julgamos que Maria Imaculada, Mãe de Deus, realmente apareceu a Bernadete Soubirous em 11 de fevereiro de 1858 e em dias subseqüentes, 18 vezes ao todo. Os fiéis têm motivos para crer que isso é incontestável.

Autorizamos a devoção a Nossa Senhora da Gruta de Lourdes em nossa diocese... [e], em conformidade com os desejos da Virgem Santíssima, expressos mais de uma vez durante as aparições, propomos a construção de um santuário no terreno da gruta que o bispo de Tarbes acaba de adquirir."

O documento do bispo também proclamou milagrosas sete das curas que aconteceram em 1858. A resposta dos veículos de comunicação, que já era grande, tornou-se enorme.

                                                                                      

Em 1862, Achille Fould, financista judeu e ex-ministro da fazenda francês, comprou nas proximidades de Lourdes uma propriedade que pretendia desenvolver. Apressou-se a convencer a Companhia Ferroviária Meridional a fazer passar por Lourdes e por sua propriedade a ferrovia que estava em construção de Tarbes a Pau.

Dessa maneira, os cidadãos pobres de Lourdes viram-se diretamente ligados por estrada de ferro ao resto do continente  e ligados para todo o sempre a fontes de renda. Agora, romarias organizadas podiam chegar de trem, o que faziam e continuam a fazer em número cada vez maior. Esses romeiros precisavam de hotéis, restaurantes e outras comodidades.

Assim, surgiu o maior santuário de cura da história européia. Milhares de curas têm ocorrido ali, embora só 64 tenham sido oficialmente reconhecidas até 1970.

                                                                                      

Enquanto a comissão estudava a questão, em julho de 1860, Abbé Peyramale e o prefeito de Lourdes persuadiram a madre superiora do convento das Irmãs de Nevers a aceitar Bernadete como interna.

Bernadete tinha 16 anos e ainda era "ignorante como um bebê no berço". Assim, com tristeza, ela deixou a família  uma família cheia de brios que, apesar de desprovida de recursos, recusou-se a aceitar qualquer ajuda, exceto a casa mais salubre conseguida pelo Abbé.

No convento, Bernadete teve de receber muitos visitantes, pois os inquéritos e as investigações estavam em andamento. As irmãs admiravam sua humildade e resistência durante as entrevistas cansativas. Esta vidente comportava-se como instrumento apropriado da Mãe Santíssima.

Sofria cada vez mais ataques de asma e, na primavera de 1862, os pulmões se inflamaram. Quando recebia a unção dos enfermos, abriu os olhos, pediu água da fonte, bebeu-a e ficou curada.

Mais tarde foi transferida para a sede da ordem em Nevers, 500 quilômetros ao norte de Lourdes onde, como irmã Marie-Bernard, permaneceu humilde e obscura até a morte, em 16 de abril de 1879, aos 32 anos de idade. No mesmo ano, o único filho de Napoleão, o ex-príncipe imperial, apelidado "Loulou", foi atravessado por uma lança e morreu, quando lutava pelos interesses britânicos nas guerras zulus na África. Tinha 21 anos de idade.

                                                                                      

O corpo de Bernadete foi exumado pela primeira vez em 22 de setembro de 1909. Estava intacto e teve início o processo de beatificação. Foi novamente exumado em 3 de abril de 1919, quarenta anos depois da morte, e continuava intacto  exceto por ligeira descoloração na face, que foi corrigida com cera preservadora.

O corpo foi, então, colocado em um esquife de vidro e durante muitos anos ficou exposto à visitação dos fiéis e dos turistas, na capela do convento em Nevers. Em 1933, ela foi canonizada como Santa Bernadete.



Em 1906, a gruta e a basílica foram confiscadas do bispado de Tarbes pelo governo francês e, em 1910, sua posse foi cedida à municipalidade de Lourdes. A primeira visita papal ao santuário da aparição de Nossa Senhora da Gruta de Lourdes ocorreu em 1982.

O mais famoso santuário de cura do mundo, há muito tempo um lugar vasto e esplêndido, recebe anualmente a visita de mais de 15 milhões de pessoas.

Fim

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte II




(Continuação da postagem anterior.)

Interrogatórios de videntes fazem parte da ação dramática das aparições, mas os concernentes a Bernadete estão tão bem registrados por extenso, que aqui só farei um breve exame deles.

Um dos fatos principais é que o vigário cantonal de Lourdes, Abbé Peyramale (descrito como austero, severo e inflexível), manteve-se à distância da situação. Referia-se a Bernadete com "as mais profundas suspeitas" e é possível que encorajasse a polícia a ameaçar prendê-la por perturbar a ordem pública.

Assim, os primeiros inquisidores de Bernadete foram os policiais da localidade. Depois da quarta ou sexta aparição, o delegado de polícia Jacomet ordenou que a trouxessem diretamente à casa dele, no centro da cidade. Em sua maioria, os relatórios afirmam que ele a achou modesta, sincera, sem estar atrás de dinheiro ou atenção, mas, por outro lado, "incompreensível".

As fontes dão versões diferentes do encontro com Jacomet, mas elas são, em grande parte, inventadas, pois ninguém estava presente para anotá-lo diretamente. Porém todas concordam que, no primeiro encontro ou no segundo interrogatório, o delegado Jacomet "perdeu a paciência". Submeteu-a a "arbitrariedades humilhantes" e, por fim, proibiu-a de voltar a Massabielle, ameaçando prendê-la se o fizesse.

Entretanto, o segundo interrogatório por Jacomet acabou de maneira imprevista, por causa das "multidões iradas" reunidas do lado de fora que, aparentemente, ouviram os berros de Jacomet e começaram a vaiar e a exigir a soltura da vidente.

                                                                                      

No dia seguinte, Bernadete "ignorou a proibição" e, acompanhada por uma multidão ainda maior, voltou a Massabielle. Mas a aparição não se manifestou. Ao mesmo tempo, quando percebeu a força crescente da opinião pública e quando também surgiram argumentos em favor da vidente, o prefeito de Lourdes desafiou a proibição policial. De qualquer modo, no sexto dia da seqüência de aparições, as autoridades civis de Lourdes viram-se preocupadas apenas com questões do controle da multidão, quando os romeiros começaram a chegar em grande número.

Depois da nona aparição completamente atordoante (descrita adiante), Bernadete foi mais uma vez chamada para interrogatório, desta vez pelo promotor público imperial da cidade, uma situação mais séria. Mas esse encontro não deu muito certo, aparentemente porque, ao ouvir as respostas e declarações "incompreensíveis" de Bernadete, o promotor perdeu o fio de seus argumentos e ficou "aturdido".

Mais uma vez, a multidão bem maior do lado de fora exigiu a soltura da vidente e, além disso, ridicularizou e zombou do promotor, espalhando que ele sofria de dança de são Guido (doença que causa tremores) e que as velas da casa dele "acenderam-se sozinhas", enquanto Bernadete estava lá. Abalado, o promotor público imperial ficou feliz em soltar a menina.

Posteriormente, Bernadete foi chamada de novo, desta vez pelo magistrado examinador e pelo comandante regional da polícia de Tarbes, uma cidade próxima. Contudo, parece que o assunto principal desse encontro não era Bernadete nem a natureza da aparição, mas sim a forma de controlar as multidões que a essa altura haviam começado a inundar toda a região ao redor de Lourdes e de Tarbes.

                                                                                      

A distância que padre Peyramale colocara entre as aparições e a Igreja começou a se estreitar em conseqüência da 13ª aparição (em 2 de março), na qual Aquero pediu a Bernadete para "dizer aos padres" que o povo deveria vir à gruta em procissão e que uma capela deveria ser construída ali. Eram notícias eletrizantes em uma situação que já estava bastante carregada.

Para transmitir essa mensagem, Bernadete foi à residência do padre Peyramale, acompanhada de duas tias, irmãs de sua mãe, e seguida por uma multidão de aproximadamente duas mil pessoas.

Padre Peyramale não gostou da delegação formada pelas três, aparentemente porque certa vez expulsara as duas tias da Escola dos Filhos de Maria, depois que ambas engravidaram antes do casamento. A ira dele deixou Bernadete tão confusa e intimidada que ela saiu de sua presença com as tias sem se lembrar de transmitir os pedidos de Aquero.

Foi então decidido fazer um sacristão amigo enfrentar a ira do padre e quando o sacristão finalmente apresentou os pedidos da Senhora ao sacerdote, padre Peyramale viu-se obrigado a tomar decisões em nome da Igreja.

Padre Peyramale exigiu que Aquero dissesse seu nome. Algumas fontes declaram que também exigiu que ela fizesse florescer imediatamente, no frio do inverno, a roseira quase morta que havia na frente da gruta. Outras fontes omitem a referência à roseira ou declaram que ela não existia. Mas é provável que a existência da roseira fosse real, pois a menção dela está incluída nos primeiros rumores que Joana Abadie espalhou pela cidade (que a Senhora apareceu acima e ao lado da roseira).

Depois da 15ª aparição, porém, é quase certo que não se encontrassem provas da existência da roseira  em grande parte porque muitos dos oito mil romeiros que desejavam uma lembrança haviam pegado tudo o que podia ser levado como recordação. Se a roseira tivesse florescido, teriam arrancado as flores como relíquias, depois os talos e caules e até as raízes.

O pedido do nome feito por padre Peyramale foi transmitido a Aquero durante a 15ª aparição. Mais uma vez, o nome não foi dado. É bem provável, como muitos alegaram, que padre Peyramale agora sorrisse consigo mesmo, por causa desse anticlímax. De qualquer maneira, ele agora achava que não eram necessárias decisões eclesiásticas sobre a aparição e que Bernadete estava no fim.

Embora Bernadete voltasse todos os dias a Massabielle, parecia que as aparições da quinzena tinham cessado  para grande desapontamento das multidões cada vez maiores. Entretanto, a ação dramática em Lourdes não terminara, de modo algum, e, na verdade, estava apenas começando.

                                                                                      

A opinião popular das multidões já decidira que a identidade de Aquero era a da Santíssima Virgem Maria. Bernadete começara a rezar o terço enquanto se ajoelhava na gruta e dizia que Aquero pedia "orações pelos pecadores". Quem mais Aquero poderia ser, além de Maria Santíssima?

Muita gente no meio das multidões afirmava ver a Virgem Santíssima no local e "ouvir vozes" que não vinham de parte alguma, e diversas crianças tinham ataques, entravam em transe ou ficavam histéricas. Por ocasião da 15ª aparição e apesar das objeções do clero, o local estava completamente tomado por imagens votivas da Virgem. A esse tempo, os que acreditavam na aparição ainda eram chamados "devotos" que tinham "almas simples" (leia-se "almas obtusas") e eram em número significativo nas multidões.

Os devotos acendiam muitas velas no local e as deixavam acesas, o que os policiais de Lourdes e de Tarbes consideravam risco de incêndio. Mesmo assim, os arredores de Massabielle "brilhavam lindamente à noite". Muitos atiravam dinheiro na caverna, pois ainda não havia ninguém encarregado de recebê-lo. Assim, a situação começou a fugir ao controle das autoridades municipais e dos clérigos locais e a passar diretamente para as mãos da devoção popular. Entre as multidões que chegavam havia um número cada vez maior de pessoas instruídas e incrédulas (diferenciadas dos camponeses analfabetos e dos "adeptos ignorantes"). A aparição era levada a sério.

                                                                                      

Mas a aparição em Massabielle teria sido esquecida na história se não fosse pela decisiva nona aparição durante o período da quinzena. A nona aparição ocorreu na quinta-feira, 25 de fevereiro, ou na sexta-feira, 26. Durante a aparição, Bernadete, que estava ajoelhada, levantou-se inesperadamente, sem sair do êxtase. Primeiro, virou-se e ficou de frente para o Gave. As três mil pessoas que a essa altura formavam a multidão ficaram em silêncio.

Viram-na olhar um momento para trás, para a aparição que ninguém mais via, como se pedisse instruções. Depois ela sacudiu a cabeça, numa espécie de assentimento. Começou a mover-se de novo, desta vez em direção à gruta onde quase entrou  e pôs-se a cavar febrilmente com as mãos.

Quase no mesmo instante, uma água barrenta começou a jorrar na depressão rasa que ela cavara. Bernadete bebeu um pouco dessa água, lavou o rosto com ela e arrancou e comeu um pouco de capim das bordas do buraco lamacento. Levantou-se e saiu da gruta com o rosto coberto de lama e ainda mastigando o capim. Alguns dos observadores próximos começaram a rir às escondidas e outros disseram que, finalmente, ela enlouquecera. Seguiu-se um pandemônio, com gritos de "prendam-na!".

Bernadete teve de ser escoltada até uma casa na rue des Petites-Fosses, na cidade. Só ao chegar a salvo nessa casa, ela contou que Aquero a mandara cavar no lugar seco e dissera: "Beba a água e se lave na fonte e coma a grama que estiver ali".

Ainda naquela mesma tarde, os que chegavam a Massabielle viam um novo filete d'água que brotava da gruta rochosa e corria para o Gave. Na verdade, a torrente aumentava enquanto olhavam. No dia seguinte, a fonte estava produzindo 25 mil galões de límpida água doce a cada 24 horas.

Vivia em Lourdes um "simples cavouqueiro" chamado Louis Bourriette. Segundo confirmação médica, ele sofria de amaurose incurável (estava ficando cego). Louis Bourriette pediu que lhe trouxessem água da fonte. Banhou os olhos quase cegos nessa água  e voltou a ver, fato confirmado pelo médico do lugar.

Na manhã do dia seguinte, essa notícia eletrizante inspirou Jeanne Crassus, que havia dez anos tinha uma das mãos paralisada, a ir a Massabielle. Ali ela mergulhou a mão inválida na água por alguns momentos e quando a ergueu para todos verem, a mão voltara a ser normal.

As notícias desses milagres espalharam-se rapidamente. Houve uma "explosão de aplausos" entre os milhares de testemunhas reunidas em Massabielle. O tumulto logo se espalhou por toda a cidade, onde os sinos das igrejas começaram a tocar. As pessoas amontoavam-se, gritavam e soluçavam nas ruas e "ouvia-se a comoção à distância no campo".

Quando milhares tentaram chegar até a água, houve distúrbios na gruta. Instantaneamente aconteceram mais curas. Policiais, agora acompanhados por soldados, chegaram para tentar manter a ordem. Foram sobrepujados pelas multidões e, de qualquer modo, a maioria deles juntou-se às massas, na tentativa de beber a água.

É muito difícil compreender como Abbé Peyramale e seus colegas canônicos, os padres Pomian, Serre e Pene, puderam manter-se distantes dessas curas. Contudo, foi o que fizeram: condenaram-nas como "tolice" e foram criticados por esse "ponto de vista inflexível". Contudo, as primeiras curas levaram o padre Peyramale a reconhecer que Bernadete, afinal das contas, "devia ser sincera". Mas nenhuma questão teológica estava envolvida ainda e os clérigos continuaram desinteressados.

Continua...

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Pequena história de Nossa Senhora de Lourdes, Parte I




(retirada do livro "As Grandes Aparições de Maria" de Ingo Swann)

Em 1858, a fama da grande aparição em La Salette já completara 12 anos e fazia dez anos que o imperador Napoleão III estava no poder. Para surpresa de muitos, embora exercesse poder ditatorial direto e ninguém ousasse contrariá-lo, ele se mostrava uma força inspiradora.

Sob seu governo, a França alcançou rápido progresso material. A construção de estradas de ferro foi fomentada e, pela primeira vez, redes ferroviárias começaram a unir a nação em um todo interligado. Cidades foram reconstruídas. O imperador em pessoa replanejou Paris e orientou a construção dos bulevares amplos e dos parque espaçosos agora bem conhecidos. Napoleão autorizou os primeiros bancos de investimento, a expansão das construções deu emprego a milhares de pessoas e a economia prosperou. No princípio, as especulações estrangeiras de Napoleão também foram bem-sucedidas e o Segundo Império parecia estar a caminho.

Santa Catarina Labouré ainda não morrera e o público ainda não conhecia sua história completa. A fama de La Salette parecia segura e ninguém imaginava que outra aparição, mais notável que aquela, logo fosse ocorrer. Portanto, os franceses ficaram atônitos quando, em fevereiro de 1858, começaram a se espalhar rumores entusiasmados de que Nossa Senhora estava de volta e, de novo, em um lugar de que poucos tinham ouvido falar.

Lourdes situa-se na região Bigorre do sudoeste da França, nas encostas setentrionais dos Pirineus, a admirável cadeia de montanhas entre a frança e a Espanha. O lado francês dos Pirineus recebe chuvas abundantes e sempre foi famoso pelo lindo cenário, as torrentes caudalosas chamadas gaves e a abundante água mineral. Havia tempo que muitas das fontes minerais tinham se transformado em balneários elegantes nos quais os ricos se reuniam e, com isso, traziam dinheiro e empregos. Contudo, em toda parte, ainda existia pobreza, uma pobreza assustadora.

A cidadezinha de Lourdes não possuía uma fonte de água mineral e, portanto, estava privada de qualquer esperança de benefícios econômicos. Mesmo assim, parece que era uma cidade idílica nas margens do Gave de Pau, ligadas pela torrente Lapacca, no lado oposto do qual estavam o hospital e a escola das Irmãs de Nevers.

No frio dia de inverno de 11 de fevereiro de 1858, três garotinhas mal vestidas saíram da cidade e atravessaram uma ponte para chegar ao promontório rochoso que, na ocasião, estava cercado pelas águas geladas do Gave de Pau.

Foram lá catar gravetos e galhos para queimar e ossos descartados para fazer sopa, embora outros antes delas já tivessem feito o mesmo. As três estavam bastante desnutridas.

Na extremidade oeste do promontório, mas do outro lado da torrente menor, existia um penhasco chamado Massabielle. O rochedo tinha uma área oca, citada como caverna ou gruta, diante da qual havia um pouco de mato e uma roseira silvestre quase morta. A menina mais velha foi até lá catar alguns gravetos.

Quando as outras duas garotas foram procurá-la, viram-na ajoelhada diante da gruta, com o rosto voltado para cima. Correram até ela, pensando que estivesse machucada. Encontraram-na paralisada, com os olhos dilatados, e não conseguiram mover-lhe os braços. Apavoradas, começaram a gritar.

A garota paralisada era Bernadete Soubirous, que dali a duas semanas se transformaria, de maneira defensável, na maior vidente de todos os tempos  e a caverna simples se tornaria a mais notável e majestosa gruta da história. Em 12 dias , o pobre lugarejo de Lourdes, com menos de trezentos habitantes, seria invadido por mais de vinte mil romeiros e, um mês depois, por cinqüenta mil.

                                                                                      

Os primeiros anos de Bernarde-Marie Soubirous, conhecida na história simplesmente como "Bernadete", foram de pobreza assustadora e penosa. Ela nasceu em 7 de janeiro de 1844, primeira dos oito filhos de François e Louise Soubirous, no moinho Boly, onde o pai trabalhava e a família vivia.

Quando ela estava com 8 anos, o pai perdeu a visão do olho esquerdo em um acidente no moinho e dois anos mais tarde, quando Bernadete tinha 10 anos, foi demitido do moinho, de onde a família foi expulsa. Isso forçou-os a viver em pobreza cada vez mais extrema.

Ainda aumentando, a família Soubirous foi ajudada por um parente distante, um certo Sajous, que era pedreiro e permitiu que morassem em uma casa térrea, uma "gaiola de pedra cheia de umidade", chamada "masmorra", porque antes era a cadeia do lugar.

Em 1855, houve uma epidemia de cólera na região Bigorre dos Pirineus e Bernadete adoeceu. Muita gente morreu, mas ela se recuperou, embora pelo resto da vida sofresse gravemente de asma. A fome também acompanhou a epidemia. Como alimento de um dia inteiro, a família às vezes tinha de compartilhar um pão, ou um pedaço de um pão, ou pão nenhum, e uma sopa aguada, às vezes feita com ossos catados nas ruas ou nas cercanias da cidade. Obviamente desesperado, François Soubirous foi preso por roubo, mas as acusações foram retiradas.

A família começou a sofrer privações tão duras que a lareira estava sempre apagada. Jean-Marie, o menino mais velho da família, foi apanhado na igreja local, onde tentava comer a cera macia das velas, e o prelado ameaçou mandá-lo para a cadeia. Em fevereiro de 1858, a família estava passando fome. Bernadete, que estava sempre tossindo e ofegante, tinha 14 anos e não sabia ler nem escrever.

                                                                                      

A aparição a Bernadete Soubirous está muito bem documentada, na verdade, excessivamente documentada  e isso significa que existem várias versões. A própria Bernadete escreveu quatro versões, cada uma delas um pouco diferente das outras em pequenos detalhes, a primeira em 1861, depois que aprendeu a ler e escrever.

Em suas próprias palavras, o que Bernadete viu primeiro, no meio da gruta, foi uma "luz suave", que notara em duas outras ocasiões em que viera catar coisas. Desta vez uma "linda moça" apareceu dentro da luz suave. Quando a linda moça acenou para Bernadete, esta "ficou amedrontada e não respondeu". Entretanto, todas as fonte concordam que as duas companheiras a encontraram ajoelhada e em êxtase. Uma das garotas era irmã de Bernadete e a outra a fuxiqueira Joana Abadie. As duas meninas sacudiram-na até que Bernadete voltou a si e lhes contou o que vira.

                                                                                      

A caminho de casa, aparentemente Bernadete encontrou outra irmã e mais uma vez contou ter visto a bela moça dentro da luz suave. A irmã contou à mãe. Joana Abadie espalhou pela cidade que Bernadete tivera uma visão e estava maluca. Por causa disso, diversas moradoras vieram informar-se com sua mãe. A mãe de Bernadete ficou muito contrariada e o mesmo aconteceu com o pai. Bernadete foi proibida de voltar a Massabielle. E por precaução, como aviso, talvez como demonstração para as mulheres curiosas, a mãe "bateu" nas duas meninas por "contarem mentiras". Porém, na tarde seguinte, Bernadete mencionou o assunto ao sacerdote no confessionário e lhe pediu para contar ao pároco, padre Peyramale, que não mostrou interesse.

No domingo, 14 de fevereiro, Bernadete deu um jeito de conseguir a permissão do pai para voltar a Massabielle com as mesmas duas garotas. Outras sete a acompanharam. Mas, desta vez, levaram água benta. Bernadete ajoelhou-se diante da gruta, rezou e logo viu de novo "Aquero que, no dialeto Bigourdan local, significa "aquela". Desta vez, ela aspergiu a Senhora com água benta, o que, aparentemente, fez Aquero sorrir.

Nesse momento, Joana Abadie, que subira no alto de Massabielle, acima da gruta, empurrou para baixo uma grande pedra que caiu perto de Bernadete. Mas Bernadete estava paralisada, em êxtase, e já não respondia aos gritos das companheiras.

As meninas não conseguiram despertar Bernadete e entraram em pânico. Duas ou mais correram à vila, onde pediram ajuda a um moleiro local que voltou com elas e carregou a inconsciente Bernadete, "que sorria para algo que ninguém mais via", até seu moinho, onde ela aos poucos recobrou os sentidos.

Enquanto isso, Joana Abadie mais uma vez espalhou mexericos por toda a cidade. A mãe de Bernadete ficou abaladíssima e  muito preocupada com a sanidade mental da filha. O sentimento predominante no lugar era de desaprovação e, na segunda-feira, depois das aulas, zombaram e caçoaram de Bernadete na rua e uma mulher que ela não conhecia deu-lhe um tapa por "encenar comédias".

Mas uma senhora abastada, que às vezes contratava sua mãe como criada, interveio e, por sua influência, ficou acertado que levariam Bernadete de novo à gruta, bem cedo no dia seguinte, terça-feira, 16 de fevereiro. Desta vez deram lápis e papel para Bernadete pedir a Aquero que escrevesse seu nome.

                                                                                      

Terça-feira cedo, Bernadete visitou a gruta pela terceira vez, mas agora acompanhada de um grupo muito maior de pessoas em silêncio, que se acotovelavam para chegar a pontos convenientes na beira do rio em frente ao rochedo de Massabielle. Algumas dessas testemunhas levavam terços, provavelmente para afastar o mal.

Bernadete ajoelhou-se e entrou em "transe". Ninguém além dela viu nada, mas, apesar disso, dois adultos próximos pediram-lhe para não se esquecer de perguntar o nome de Aquero. Em transe, Bernadete mandou que ficassem quietas. Depois de algum tempo, Bernadete saiu do transe, sem ter obtido o nome.

Quando lhe perguntaram por que, Bernadete respondeu: "Eu lhe perguntei, mas ela disse que não era necessário". Depois de alguns momentos de silêncio interrompido por murmúrios das testemunhas ali reunidas, Bernadete falou: "Mas ela me disse: 'Quer ter a bondade de vir aqui durante 15 dias? Não prometo fazê-la feliz neste mundo, mas no outro'".

A aparição sem nome tinha falado! E falou deste mundo e do outro! Assim começou o que às vezes é citado como a "quinzena de aparições", em número de 15 ou 16, dependendo da fonte consultada. É certo que a aparição seguinte foi a quarta.

E também é certo que quando Bernadete aproximou-se novamente da gruta, estava acompanhada de cem ou mais pessoas. Quando a notícia da aparição se espalhou, toda a população de Lourdes ficou interessada, com um número considerável de "atraídos" dos lugares vizinhos.

No meio dessa quinzena, o número de pessoas reunidas ultrapassava oito mil e a certa altura o acotovelamento era de tal magnitude que soldados armados tiveram que escoltar Bernadete até a caverna  então e para sempre chamada "a gruta".

Continua...

domingo, 27 de novembro de 2016

O Manual na Mão


Alexandre Martins, cm.


O Manual do Congregado é uma ferramenta muito útil para a devoção particular dos membros das Congregações Marianas e para o início da compreensão das características de um verdadeiro Congregado Mariano.
O primeiro Manual para uso dos Congregados foi feito na cidade de Colônia, Alemanha, no século XVII em uma Congregação Mariana de Sacerdotes. No Brasil, houveram várias versões a partir do século XX, mas cada Congregação Mariana tinha uma publicação particular. Com a publicação do Manual dos Congregados pela Federação de São Paulo, não tardou que a Confederação Nacional publicasse a versão oficial padronizada para todo o país:
O Congresso confere à CNCMB* o direito reservado da publicação do Manual oficial. Só a Federação de São Paulo, por ser muito numerosa e possuir há muito seu Manual, fica isenta desta disposição, com a obrigação de não a vender fora do estado.” - 1º Congresso Nacional de Diretores.1

Desde as primeiras versões brasileiras, o Manual dos Congregados consta de basicamente três partes: A Regra de Vida, o Modo de agir do Congregado e o Devocionário.

A Regra de Vida

“As Regras passavam da Capela para as casas, pois estabeleciam que nos aposentos dos Congregados deveria sempre haver água-benta ou alguma imagem piedosa, com a finalidade de 'refrescar a memória”. 2
Os primeiros manuais continham a Regra inteira, incluindo as citações das publicações dos decretos eclesiásticos que as legitimavam. No Manual de 1997 consta apenas um resumo da Regra de Vida, com suas partes principais. Seu estudo é útil para a compreensão do básico das Regras, sendo de grande valia para os Aspirantes a Congregado.

O Dia a dia do Congregado

“As Congregações Marianas existem para ensinar como harmonizar Fé e Virtudes Cristãs com as ocupações cotidianas.”3
Embora existissem edições do Manual do Congregado que davam detalhes do modo de vida de um autêntico Congregado, o que todas as publicações tem em comum é mostrar o que difere um membro das Congregações Marianas de outras associações de fiéis católicos. O que é mostrado serve desde já para orientar o “modus vivendi” de um devoto que deseja se consagrar à Virgem Maria nas suas Congregações.

O Devocionário

“De fato, não é singular irmos aprender nos livros o que devemos dizer a Deus? Se não for posível proceder de outro modo empreguemos este meio; antes nos servirmos de um livro, que orar mal ou deixar de fazê-lo.” diz o pe. Meschler, SJ4
A edição de 1981 do Manual tinha o título “Manual-Devocionário do Congregado Mariano”. E era isso mesmo: metade da edição era somente de orações e práticas de piedade.
O Devocionário é uma parte do Manual que contém várias orações que são úteis para o Congregado mariano em sua vida de piedade pessoal e também orações que são para uso coletivo, como a Hora Santa. Não se trata de orações especiais de uso privativo dos Congregados marianos, mas são orações que são especialmente úteis para eles. Neste devocionário, os Aspirantes e Candidatos podem entender como a oração é usada e apreciada nas Congregações Marianas e como isso o educa na Fé Católica.

Seu uso constante

O uso do Manual é necessário para o Congregado diariamente. Em especial para os que estão começando nas Congregações Marianas, como os Aspirantes e os Candidatos, que devem tê-lo sempre “à mão”, como significa a palavra “manual”, isto é, algo “sempre ao alcance das mãos”.
As Orações da Manhã, das Refeições, o Rosário diário, o Ofício da Imaculada, as Visitas ao Santíssimo Sacramento, as Orações da Noite e o Exame de Consciência: todos são bem aproveitados se feitos com a ajuda do Manual do Congregado.

Um engano comum

Há Congregações Marianas que somente permitem o uso do Manual do Congregado após a Consagração Perpétua. A justificativa é da parte do Rito de Admissão5 em que o Assistente dá o livro ao novo Congregado dizendo a admoestação. Mas nada há na Tradição ou nas Regras que indique ser o Manual apenas de uso dos Congregados e não dos demais membros da Congregação Mariana. Devemos entender essa parte do Rito como um simbolismo de atenção às Regras. No texto do Rito vemos a ressalva - “entregando, onde for costume” - indicando que nem sempre o Manual é entregue ao membro da associação quando somente ele se consagra.
Em nossa experiência, o uso do Manual desde o início da frequência à Congregação Mariana dá frutos bons e favorece o fervor e o entusiasmo pela associação.

Conclusão

Use, abuse, leia, marque, risque seu Manual de Congregado. Faça dele uma autêntica ferramenta pessoal de busca da santidade. Que este livrinho tenha a marca dos dedos de seu dono, que tenha os riscos de uso constante, mostrando que é muito usado e que, no fim, suas letras estejam gravadas na mente e no coração do Congregado que o possui.
Que a Virgem, que lia seu livro no momento da Anunciação, nos ajude a ter nosso Manual em nosso coração!