Mostrando postagens com marcador academias. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador academias. Mostrar todas as postagens

sábado, 15 de dezembro de 2018

Meditação para o 3° Domingo do Advento

Pe. João Mendes S.J

     No Evangelho do Domingo de hoje, os Sacerdotes interrogam o Batista acerca da sua Pessoa e missão. Ele nega as honras que lhe atribuem, e faz o elogio de Cristo.
     Todo o cristão é, ou deve ser, também o precursor de Cristo, seu advento e manifestação, nos tempos em que viver. Temos a Verdade e a Vida a Anunciar. "Somos testemunhas" dizem continuamente os Apóstolos, depois de Cristo subir ao céu; e não podemos deixar de testemunhar aquilo que vimos e ouvimos. O mesmo podemos todos nós afirmar; foi-nos entregue o tesouro inaudito da luz de Deus, porque o Senhor depois de se manifestar, uma vez, quer revelar-se aos homens através dos homens.
     Cumpramos, pois, o que é próprio de toda a testemunha: ter conhecimento do que atesta, e atestá-lo com desinteresse e coragem.

1. INFORMAÇÃO DO DEPOIMENTO

     1.EM TEORIA. É preciso estar informado do que se atesta, pois ninguém pode testemunhar o que ignora. O Batista conhecia a Cristo sobrenaturalmente, desde o ventre de sua mãe; e mais tarde cuidou de se informar melhor.
     E nós? Conheceremos o Mestre melhor do que tantas bagatelas com que ocupamos a curiosidade? A minha cultura cristã será, pelo menos, proporcional à minha cultura profana? No campo da minha profissão e das minhas relações habituais, possuo os conhecimentos suficientes para dar testemunho de Cristo?
     2.NA VIDA. Nas sociedades modernas paganizadas, talvez a luz de Cristo não chegue a muitos homens mais do que através  do nosso proceder. Donde vem a necessidade premente da Ação Católica senão de que Cristo só aparece a muitas almas nos informes que Dele dão a vida dos cristãos? Ora, se algum pagão tivesse de julgar do Cristianismo e de Cristo, somente pelo reflexo da luz de Deus em mim, somente pelo meu testemunho vivido, que ideia faria ele de um e de outro? Se todo cristão é o Cristo do seu tempo, serei eu um autêntico? Ou, pelo contrário, escureço e atraiçoo a Verdade, deixando corromper, nas minhas ações, a Luz e a Vida?

2. DESINTERESSE E CORAGEM NA AFIRMAÇÃO

     1.DESINTERESSE. À testemunha nada mais interessa do que dizer a verdade; é essa a sua razão de ser e a sua glória. "Eu não sou o Cristo" dizia o Batista; " não sou digno de lhe desatar as sandálias" São João não quer as honras de Cristo, pois não é mais do que testemunha que desaparece diante do que atesta: " sou a voz que clama no deserto".
     O nosso caráter de testemunhas procede de que, verdadeiramente, só há uma realidade: Deus e seu Cristo. Por isso " somos servos inúteis, não fazemos mais do que o nosso dever". Na medida em que apagamos os traços do nosso egoísmo, e vivermos a semelhança e a vida de Deus, nessa medida revelamos a face divina, nessa medida seremos perseguidos pelo mal, mas também amados pelos bons.
     Mas não me darei eu, muitas vezes, como Messias? Não usurpo a sua glória, servindo-me do meu caráter de testemunha? Vaidades, aplausos, despiques, - quantas coisas pequeninas e miseráveis se intrometem nesta grande causa, onde os interesses são divinos e se jogam destinos eternos!
     2. CORAGEM. O Batista pagou, com a prisão e a morte, a sua pregação destemida. Os Apóstolos, nos tribunais judeus e romanos, não calavam o que sabiam. Os Mártires de todos os tempos disseram, com o sangue, que Cristo é o Filho de Deus.
     Estamos, de novo, numa época de martírios. Preparamo-nos para os afrontar? Vencemos, ao menos, o respeito humano, que é o martírio em ponto pequeno? Aos mártires suprime-os o mundo como importunos, do mesmo modo que suprimiu a Cristo: " fora!, fora!". A nós, com a troça ou o desdém, pretende que também nos calemos, ou não nos mostremos como cristãos. Temos nós a coragem de arrostar este pequeno esboço de martírio?

CONCLUSÕES

     1. SOMOS SINAL DE DEUS, sua imagem e seus filhos, membros de Cristo total, prolongando-se nos nossos tempos. O cristianismo é a permanência ininterrompida de muitas testemunhas a favor do Messias, que vão chegando com a sua luz e a sua vida, para O revelarem e O manterem atual. Apóstolos, Mártires, Virgens, Confessores, todos devem transmitir o mesmo depósito Sagrado, a "tradição", ou a "entrega" duma herança preciosa, que é a imagem de Cristo, numa presença vivida.
     2. E GUARDAS DUM TESOURO. Guardemo-lo com desinteresse, porque só Deus é grande, e nós não passamos de servos inúteis. Na medida em que usurpássemos a glória de Deus, nessa medida nos diminuiríamos. E com coragem! Soldados de Cristo que, na Confirmação, recebem o Sacramento que dá força aos Mártires e Confessores, não deixemos quebrar-se, em nós esse elo de verdade e vida; e transmitamos, ao futuro, um Cristo mais amado e conhecido, uma imagem mais perfeita da vida cristã. "Guarda o que te foi confiado".

sábado, 8 de dezembro de 2018

Meditação para o 2° domingo do Advento

Pe. João Mendes S.J

          O Batista, preso por Herodes, envia a Cristo alguns dos seus discípulos para que tomem contato com a Verdade. Depois de eles se despedirem, o mesmo Cristo faz a apologia da austeridade da vida de seu Precursor.
          A história evangélica deste domingo consta, pois, de um reconhecimento do Messias, e do elogio que depois faz o mesmo Messias do Profeta que O anunciou. Ora todos nós temos de conhecer a Cristo e de O anunciar: - conhecer porque ele é tudo para nós, é o Enviado do Pai, sua imagem e nosso caminho, a Verdade e a Vida; se Ele passar perto de nós e O não virmos e amarmos, perdemos tudo, e mais valia não ter nascido;  - anunciar, porque quem o viu possui o segredo da vida e da eternidade que não pode guardar só para si; recebeu a luz da vida íntima de Deus, e terá de refleti-la para as trevas, ser " luz no Senhor" e "bom odor de Cristo", ser precursor.

1. PARA CONHECER A CRISTO

     1. VEJAMOS AS OBRAS ADMIRÁVEIS, os milagres que praticava:- " os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam....". A natureza obedece docilmente ao Enviado de Deus, e o milagre é o estremecimento do mundo diante do poder sobrenatural que o visita. " Quem é este a quem os ventos e os mares obedecem?."
      É o Verbo por quem todas as coisas foram feitas, que veio ao " seu próprio domínio", e que dele dispõe como lhe apraz. Mais que este ou aquele milagre, a grande maravilha da vida de Cristo é a naturalidade com que, sem ostentação nem esforço, se move dentro de um campo em que é senhor absoluto.
     2. REDENÇÃO DA POBREZA E DA HUMILDADE.- É um dos sinais maravilhosos que Cristo aponta, logo a seguir ao da ressurreição dos mortos, como se só a Onipotência pudesse transfigurar a humildade. E assim é. Quem sabe o menosprezo em que era tida a pobreza na antiguidade, e até entre os mesmos judeus, bem pode supor como era necessário um poder divino para a levantar da abjeção. Os humildes eram homens, sim, mas para contrabalançar o apreço das riquezas na mente do vulgo, era necessário que o interesse de Deus viesse busca-los e valorizá-los na sua humildade. A grande, a fundamental redenção dos pobres, o que os muda em sua essência, não são os salários mais baixos ou mais altos, é a predileção e o apreço que Deus tem por eles. Em sentido paralelo, podíamos dizer com um escritor moderno: " Era fácil morrer pela bondade ou pela beleza , pela Pátria ou pelos filhos ou por uma civilização, mas só um Deus podia morrer pelos maus e pelos corruptos".

2. ANUNCIAR A CRISTO

     1. REQUERE-SE AUSTERIDADE DE VIDA.- É o que se depreende do elogio do Batista, feito por Cristo : " Quem fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? ..." Só um precursor penitente podia preparar o caminho à pregação de penitência do Messias. S. Pedro, S. André, S. João, se com tanta facilidade seguiram a Cristo, foi porque antes tinham sido preparados pelo Batista.
     Quem quiser anunciar um Mestre crucificado, não pode levar vida cômoda; quem for arauto do sobrenatural, não pode viver ao foro do mundo. Trazer a Boa Nova de Cristo é alguma coisa de tão puro e sagrado, que só a santidade o poderá fazer sem traição. A penitência é pois, uma maneira de delicadeza e respeito, o apagamento do eu diante do Senhor e da Verdade que se anunciam.
     2. REQUERE-SE O PODER POLOGÉTICO DO EXEMPLO.-  A santidade é uma espécie de milagre, porque é uma vitória sobre o mundo, domínio sobre atrativos que costumam seduzir a maioria dos homens. "Ide contar ...o que vistes e ouvistes.."... Que admirável coisa não é a harmonia de palavras e obras, de doutrina e ação; a virtude é a verdade traduzida em vida, uma prova de que a verdade "serve" ao homem, que é a boa e lhe fica à medida e lhe traz a felicidade.
     E pelo contrário, o mau exemplo é o mesmo que dizer que a verdade não é desejável, que não acreditamos, portanto, no que dizemos. Sendo toda a ação um pensamento realizado, quem não for coerente com suas idéias nega por  um lado o que afirma por outro. Implicitamente, confessa que as doutrinas que segue as defende por honra da firma, mas não por uma exigência de paz e alegria.

CONCLUSÕES

     1. BEM AVENTURADO AQUELE QUE SE NAO ESCANDALIZAR COMIGO.- A vida de Cristo causa escândalo, porque Ele vem mudar o que estava antes. É um divino desmancha prazeres que vem refazer a criação, desarrumando o estabelecido. De maneira que será objeto de contradição entre o mundo velho e a cidade nova, ocasião de ruina para muitos. Perturba as leis físicas com seu poder de taumaturgo, e perturba as ideias feitas com a novidade da sua doutrina. Destrona o que é grande e reabilita o que é pobre.
     Quanto custava ao poeta Claudel, recém- convertido, a lembrança de que iria pertencer ao "pusillus grex" das humildes velhinhas, a rezarem pelos cantos das igrejas!...Nós para quem iremos? Para o grupo dos escandalizados, ao lado dos escribas e fariseus, ou para junto dos que desejam a novidade de vida e de Coração?
     2. SE A REDENÇÃO DOS POBRES É UM DOS SINAIS da divindade do Messias, reciprocamente, onde houver vida cristã a sério, haverá também amor e solicitude pelos que sofrem. Que faço eu pelos humildes? Em que apreço os tenho? Entro, de qualquer modo, no movimento da caridade, que, dentro da Igreja, há muitos séculos e em tantas obras de beneficência, leva uma corrente de simpatia afetiva, do coração doa que possuem para o coração dos que nada tem? Pertenço, ao menos, a alguma dessas sociedades? Procuro que o meu amor de Deus se meça pelo meu amor ao próximo?
   

sábado, 1 de dezembro de 2018

Meditação para o 1° Domingo do Advento

Pe João Mendes S.J

          O ano litúrgico começa com a visão terrível do Juízo Final. Parece que a Igreja nos quer advertir que a nossa vida de cristãos é coisa séria, empresa dramática que tem seu desfecho no meio de uma catástrofe. Qual será o programa do universo? E por onde se qualificarão os destinos humanos?
          O que dará sentido ao homem será o ter recebido ou não ter recebido a Cristo. E se Cristo é inevitável, e nos espera a todos à saída do tempo, é porque Ele é não só o verbo por quem todas as coisas foram feitas, como o novo Adão de quem vive a humanidade regenerada. É Nele que tudo assenta e se firma, é por Ele que tudo recebe essência e valor, é por Ele que tudo se há de aquilatar. "Jesus Cristo ontem e hoje, Jesus Cristo para todo sempre" ( 1 Hebr. 13,8) . Cristo é inevitável, porque é o princípio e o fim; porque a vida cristã consiste no mistério insondável de sermos inseridos na vida trinitária, reproduzindo, em nós, o ciclo da vida divina. E tudo isto por meio de Cristo: imitando-o e vivendo a sua vida.

1. CRISTO É O PRINCÍPIO

         1. O PLANO DE DEUS -  No interior da sua vida íntima, Deus é família. O Pai gera o Filho, seu Conceito exaustivo; e contemplando o seu Verbo ou a sua imagem, do amor mútuo de ambos, procede a Terceira Pessoa, o Espírito Santo. O nosso destino é um convite a tomarmos parte nessa visão e a sermos envolvidos nesse amor. Veremos a Deus com a mesma luz, recôndita e misteriosa, com que Ele se contempla a si mesmo; e amá-lo-emos com o mesmo Amor, que faz a dita profundíssima da sua intimidade trinitária. Mas como se realizará esta maravilha, se Deus é para nós inacessível?
         2. O MEDIADOR ÚNICO - O Pai, que é o Princípio e a Origem de todas as coisas, decreta a nossa justificação sobrenatural, e envia ao mundo a sua imagem, a sua Palavra. Assim, Cristo, o Verbo Encarnado, vem contar-nos o que viu no seio do Pai. ( Jo 18) E é por isso, que quem vê a Ele também vê o Pai . ( Jo 14,9 ) e tem nele o caminho, a verdade e a vida ( Jo 14,6 ), a única verdade e a única vida que verdadeiramente interessam. É Ele o princípio e a cabeça da nova criação. Imitando-o, alcançaremos o ar da família Divina, assemelhando-nos  a Deus Pai. Unindo-nos a Ele pelo batismo e pela Graça, seremos de fato filhos de Deus.

2. CRISTO É O FIM

         1. CRESCIMENTO DO CORPO MÍSTICO - Cristo veio dar-nos a filiação divina, estendendo a nós a Paternidade de seu Pai, " de quem toda a paternidade, nos céus e na terra, toma o nome" ( Ef 3,15); encorporou-nos no seu corpo, mediante a comunicação da sua vida divina. Depois da Ascenção, o Pai e o Filho enviam-nos o Espírito Santo, o Dom, o Amor Santificante, que é o alento, a alma, e a vida sobrenatural da Igreja, depois do Pentecostes. E fica o Cristo místico a desenvolver-se, até que o universo chegue à plenitude dos tempos, até a medida da idade do Cristo total, que é o corpo dos predestinados.
         2. VOLTA CRISTO, PELA SEGUNDA VEZ - A levar consigo, definitivamente, os eleitos, rejeitando os que não quiseram ouvir a Boa Nova. Deus toma nas mãos o eixo do mundo, e sacode os ímpios. ( Job 38,13), os que não se enxertaram na árvore da vida, e que, como frutos pecos, se precipitarão na morte eterna. Quem não estiver unido a Cristo, desprender-se-á no grande estremecimento, porque Nele é que tudo se firmava e tudo vivia. A Igreja era a alma sobrenatural da humanidade, com poder divino e assimilador; quem a desprezou em vida, enganou-se e morreu para sempre.

CONCLUSÕES

          1. A VIDA É UMA OPÇÃO TERRÍVELMENTE SÉRIA- Porque tudo o que era natural ou pecador voltará ao nada ou cairá na morte eterna. E a vida humana que tiver sido elevada à ordem divina, será reassumida, definitivamente, pelo Infinito e Pela Eternidade; dar-se-á uma mudança radical no cenário do mundo, e nessa passagem, um grande sobressalto cósmico. A ordem natural, tudo o que era passageiro e preparatório, cai pelos espaços, como se fossem os andaimes da Cidade Permanente. E fica só a Ordem Divina, tudo novo e luminoso, a Jerusalém Celeste, a Cidade Santa dos eleitos, cuja luz é o Cordeiro. A criação, divinizada em Cristo, regressa ao seio de Deus, deixando as cinzas de tudo o que é terreno e pecaminoso, no rescaldo do grande juízo.
           2. A ESCATOLOGIA E A CRUZ- Há, pois, uma tragédia inevitável na vida humana, sinal da sua grandeza e do seu destino heroico. Entre os antigos gregos, a grandeza trazia consigo a ameaça oculta de um desfecho trágico. Mas aqui, não é nenhuma crise irreparável; somente a mudança dum cenário universal, onde passa a figura do mundo aparente e fica o definitivo.
          Entretanto, nós podemos prevenir essa tragédia latente do desencontro de dois mundos; é a aceitação do mistério da Cruz. Pela renúncia e pela mortificação do pecado e da sensualidade, podemos antecipar-nos a terribilidade do juízo. Não temeremos a destruição do universo, se primeiro destruirmos, em nós, o mundo com seus falsos prestígios. A mortificação corresponde, na nossa vida, ao fim do mundo; como a agonia do fim do mundo significa a mortificação universal do amor da terra, perante a Graça. Tudo o que há nos indivíduos de repugnâncias, de contradição e revolta, em face das exigências de Cristo, projeta-se, em grande, na convulsão do universo, e no seu aniquilamento perante o sobrenatural que impera definitivamente. Nós, quebrando as rebeldias da natureza, digamos desde já, ao Senhor: " VINDE SENHOR JESUS!" ( Apoc. 22,20 )

sábado, 31 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Páscoa

Pe João Mendes S.J

     Os homens todos andam em busca de alegria, e tão poucos encontram! Porque tem medo ao risco de ir buscar onde ele está: do outro lado do sofrimento. Eis aí a divina aventura do cristão, a seríssima empresa da sua vida.
     É assim a alegria pascal: fruto da dor, alegria redimida, paz onde se encontram a pureza de alma e o amor verdadeiro. A grande festa do cristianismo, A Páscoa é a festa da alegria, mas da alegria purificada na verdade da vida, no grande encontro com Deus. " A alegria é a coisa mais séria deste mundo" disse o artista português ( Almada Negreiros). E, realmente, é num Domingo da Ressurreição, que melhor vemos e sentimos a razão dessas palavras.
     
1. O CRISTIANISMO É ALEGRIA...


     1. Porque é participação na vida de Deus, e essa vida é gloriosa. Ser cristão é escolher a eternidade, e vencer a morte. No batismo pedimos a vida eterna à porta da Igreja, começamos a ser divinos; e as nossas ações daí em diante serão humano-divinas, gloriosas portanto. É que a graça não é só um direito, e já um princípio; são as arras da glória eterna, a posse de Deus e do Céu, se bem que ainda às escuras na penumbra da fé, e nos domínios da dor e da morte. Daí o aspecto do alheamento e estranheza que o mundo sente diante do cristão convicto. É que escolheu a eternidade, renunciando aos prestígios do tempo. Tem que ser considerado estrangeiro.
     2. Porque tudo na vida cristã pode ser triunfo. Todas as dores e fracassos se podem transformar em vida divina. O Sangue de Cristo, derramado para redenção nossa, é realmente o elixir da eterna juventude que tão buscado foi pelos alquimistas antigos. Todos os fracassos e destinos falhados, até a ruína, transfigurados em valores divinos. E, se a vida só pode ter sentido e sabor, quando se desvanecer o aspecto da morte, nesse caso, ninguém mais desafogado e livre da fatalidade que o cristão. E foi esse sentimento de liberdade de espírito, diante de todas as fatalidades do mundo antigo, o que sentiram as primeiras gerações de seguidores de Cristo: desafogo perante o destino, pela decifração do absurdo.

2. MAS ALEGRIA CONQUISTADA

     1. Não é fácil a alegria cristã: não é nenhum dom gratuito que me seja entregue como a um príncipe privilegiado é entregue uma herança real. Tenho de a conquistar. E é esta a mais bela e mais gloriosa empresa da minha vida. A terrível seriedade da nossa alegria de cristãos, vem de que a participação na vida gloriosa de Deus é obtida mediante uma participação na Paixão de Cristo. A primitiva cerimônia do batismo por imersão era a sepultura do homem velho, da qual sairemos ressuscitados, juntamente com Cristo, para vivermos a novidade da vida cristã.

     2. Portanto, ser cristão é ser homem novo, resgatado e restaurado. É manter na alma o rejuvenescimento da primavera depois do inverno, da novidade depois da ruina, da verdade depois da mentira. É uma paz, ou satisfação das aspirações essenciais, em perpétua construção e conquista, com sabor de vitória.
     Mas, para ter paz no coração, aquela paz de Deus que ultrapassa todo o sentido, é preciso manter a verdade da vida, numa longa e continuada fidelidade. É o que nos pede S. Paulo na Epístola da missa de Hoje: " purificai-vos do velho fermento, para que sejais massa nova, uma vez que sois ázimos. Não foi Cristo imolado, ele é nossa Páscoa? E assim, banqueteemo-nos, não com o fermento velho, nem com o fermento da malícia e da corrupção, mas com os ázimos da sinceridade e da verdade. A nossa alegria é, pois, um gozo redimido nos sofrimentos de Cristo, uma luz de pureza e autenticidade, isenção do que é velho, mundano, e mentiroso, ázimos de sinceridade e de verdade.

CONCLUSÕES

     1. A vaidade de ser triste, tão comum aos românticos, e a todos os homens na medida em que todos temos alguma coisa de romântico, essa maneira de se propor como excepcional pelo sofrimento, é um dos estados de alma menos cristãos. Se tudo, na vida do discípulo de Cristo, é triunfo, e triunfo para a eternidade, como poderá ele comprazer-se de tristeza? Os homens excepcionais não tem fatalmente um destino heróico da tragédia, como queria o paganismo antigo; mas são aqueles que chegam à simplicidade e à humildade de sempre se julgarem felizes. O soberbo é trágico porque julga que todo o êxito lhe é devido, e o humilde é alegre, porque aceita a vida e os acontecimentos.
     2. As ascensões do coração. Depois dum bem alcançado é preciso procurar outro maior, porque só assim rejuvenesce a alegria, e vai caindo o que é velho. O motivo porque tantos, no princípio da conversão, vivem felizes, e depois perdem o gosto e a paz de Deus, é porque deixaram cansar o amor na rotina dos bens iguais; ou por outra: porque deixaram de tender so bem maior e de morrer ao que é pequeno. Para ser feliz é preciso renovar-se continuamente, com um ideal e uma doação sempre novos. Daí que conquistar a alegria seja o mesmo que conquistar a perfeição: ir subindo sempre a montanha cujos cimos vão sempre fugindo. E não se cansar, nem desistir da subida. Porque a alegria, com perfeição, não tem nível certo, ou altura marcada. É uma pureza, gozosa mas instável, que se vai criando, em altitudes, cada vez mais elevadas. Só assim seremos ázimos de sinceridade e verdade, repassados de Deus e de sua Luz beatificante.

sábado, 24 de março de 2018

Meditação para o Domingo de Ramos

Pe. João Mendes S.J

     O triunfo de Cristo, que no Evangelho de hoje se comemora, é um contraste perfeito com as discussões de domingo passado. Aí, era a má vontade e falta de clareza interior, perante a luz divina que se propõe ao coração do homem: " Amaram os homens mais as trevas do que a luz".
     Hoje, as almas dos simples e dos bem intencionados, recebem e aclamam " o que vem em nome do Senhor". Neste erguer de ramos de palma e de oliveira, tudo tem o caráter espontâneo do que floresce naturalmente: são corações que se abrem.

1 O TRIUNFO DE CRISTO É A HUMILDADE E MANSIDÃO

     1. Os triunfadores deste mundo, os homens que arrastam as multidões, lançam mão do aparato exterior, dos grandes lances e abalam os nervos. Levam-nos após a si, atraídos pelo efeito espetacular de grandes paradas, desfiles armados, clarins, bandeiras. Aqueles mesmos que têm dotes pessoais de atração sedutora parece que são possuidores de uma espécie de magnetismo que é mais senhor dos nossos nervos que daquele amor profundo que deseja puramente o bem melhor. Há qualquer coisa de falso e traiçoeiro na sedução que os grandes homens exercem sobre os nossos entusiasmos delirantes. Não entram pela porta do redil, que é a aspiração profunda ao bem sem limites; não são ele o Bom Pastor, mas sim, lobos suspeitos.

     2. O triunfo de Cristo tem caráter autêntico da naturalidade: espontâneo, simples, como uma flor se abre ao sol ou um coração se rende ao amor. Nos antigos triunfos romanos, um escravo ia dizendo ao ouvido do triunfador para que a glória o não embriagasse: " lembra-te que és homem!". Agora, diz Bossuet, é necessário que lhe digamos: " Lembra-te que és Deus". Ausência absoluta de tudo o que seja espetacular, ou para causar efeito: o Senhor montado simplesmente num jumentinho, sem mais alarde que os atrativos da sua Pessoa Divina; e à volta, a aclamação das crianças, de cuja boca sai o louvor acabado, e dos discípulos e populares, cuja alma simples, não amarga pela inveja dos fariseus, reconhece, instintivamente, onde está a fonte que jorra para a vida eterna. Tudo familiar, suave, pacífico; e aqueles ramos de palma e oliveira dir-se-ia brotarem, tão naturalmente, como uma primavera de amor entusiasta, nas almas bem formadas.

2. MAS IRREPRIMÍVEL, PORQUE FUNDADO NO AMOR

     1. Donde vem o ressentimento, Cristo foi, no conjunto da sua missão, mal recebido pelos homens; " e os seus não o receberam". É que Ele vem trazer a espada e a guerra, separar oa pais dos filhos, e os irmãos dos irmãos: é uma mensagem incômoda que o homem velho não perdoa, e que o leva a juntar-se aos escribas e fariseus: " Fora! Fora!". Mas as exigências de Cristo não são mais do que correlativo das nossas ambições desmedidas. Precisamente porque nós ambicionamos muito mais do que os limites deste mundo, é que o Senhor tem de nos dizer que desapeguemos do que é pobre e limitado. E assim, se nós não fossemos tão excessivos no amor, não seria Cristo tão implacável no que nos pede. A cruz nasce da terrível seriedade e profundeza do nosso amor exigente. E por isso, quando as exigências de Cristo se encontram com as ambições do homem então, somos santos e felizes.
     2. Donde vem a aclamação. Vem de que, nas almas, há alguma coisa de mais fundo que os ressentimentos do homem velho, uma verdade que aclama Cristo e necessita Dele . Para além das nossas maldades e do miserável apego às pobres alegrias da terra, lateja, doloridamente, a angústia essencial da nossa pobreza de amor. Para além dos pequenos amores, queremos o Amor profundo o que não engane e sempre dure. E é por isso, que há, também, em nós, quem tome partido por Cristo e por sua bondade santa e exigente. " Hosana ao filho de Davi, bendito o que vem em nome do Senhor" E quantas vezes, como agora na entrada de Jerusalém, o Mestre não é aclamado pelo que de mais puro existe no coração do homem! Que são, por exemplo, as grandes manifestações mundiais dos congressos Eucarísticos, em meio do materialismo trepídante da vida moderna, senão o triunfo, suave e bondoso, do Rei que vem a nós na mansidão invencível do seu amor?!

CONCLUSÕES

     1. O nosso Chefe. Todos nós desejamos alguém a quem seguir e a quem nos possamos entregar. Mas quem nos dará o triunfo perfeito? Sejamos fiéis a nós mesmos, entrando no grupo dos que aclamam a Cristo; juntemo-nos ao cortejo humilde e simples, fazendo da nossa vida, uma fidelidade ao Bem autêntico e sem encarecimentos. O homem velho prefere os triunfadores espetaculares. Deixemos os efeitos fáceis, e firmemos a vida na verdade do Amor.
     2. O êxito da Vida. Colocaremos, assim, o êxito e o triunfo pessoal a que todo o homem aspira, para além da segurança aparente com que nos apoiam os aplausos do homem. Estes podem dar-nos a ilusão momentânea de que nos fazem maiores; mas quando nos faltam, logo vemos o logro e o desamparo. Cada um é o que é diante de Deus, e mais nada. É vivermos para dentro e para o profundo, em demanda do reino de sombra da humildade simples, onde nasce o rei da Glória.

sábado, 17 de março de 2018

Meditação para o Domingo da Paixão

Pe João Mendes S.J

     O Evangelho deste domingo é um dos episódios culminantes da luta de Cristo com os fariseus, desse fundo desentendimento das vontades humanas perante a Luz, que levou Israel a não aceitar o Redentor e a crucificá-lo. Cristo não discute só com os doutores da lei, mas com os sofismas de todos os homens que amam mais as trevas do que a luz, e que tem medo de Deus e de suas exigências sobrenaturais.
     Na variedade de ideias e incidentes da polemica referida no Evangelho, salientam-se duas linhas gerais, relativas, consequentemente, ao problema da Fé: Cristo vive, intimamente unido ao Pai, cuja glória procura, e cuja doutrina reflete fielmente. E os Fariseus, porque não são de Deus, também, por isso, não ouvem a Cristo que a Deus está unido.

1. CRISTO É " DE DEUS"

     1. A santidade de Cristo. Os fariseus acusavam a Cristo de estar possesso do demônio. Mas o Senhor desafia-os, com segurança divina, a que O acusem de pecado. E como poderiam fazê-lo, se Ele só procura a Glória de Deus, à qual se doou numa consagração perfeita? E é essa pureza absoluta de intenções, esse desprendimento generosíssimo e piedoso, que reverte de Deus Pai para seu Filho, transformando num testemunho de santidade e de verdade. Diante dos Santos, sentimos a proximidade do eterno e do definitivo, da segurança e do amor, - precisamente, porque, neles, o homem se apagou, e adere puramente a Deus, enchendo-se de uma verdade e de uma presença divinas, que os impõe por si mesmos. Devia ter sido assim, e incomparavelmente mais, com N.S Jesus Cristo.
     2. A doutrina de Cristo apresenta o mesmo ar de autenticidade: doutrina pura, impecável, como a do sermão da montanha, que não lisonjeia nenhuma paixão. O Redentor não é mais do que a testemunha do que ouviu do Pai; e se disser que O não conhece, será, como os fariseus, mentiroso. Por isso é que quem ouvir as suas palavras e as guardar, ficará, para sempre, isento da morte. É como se o Senhor dissesse: nas doutrinas e sistemas dos homens, quantos interesses escondidos! justamente, porque essas doutrinas nasceram, os mais das vezes, para justificar-lhes o proceder. Mas com Ele, não é assim. Os seus ensinamentos procedem da fonte mesma da verdade e da vida, sem traição nem desvio, porque Ele está unido ao Pai, com sinceridade puríssima.

2. OS FARISEUS PORQUE NÃO SÃO DE DEUS REJEITAM A CRISTO

     1. O que é ser << ex Deo>>, ou << ex veritate>>. É estar persuadido que a Verdade é santa, porque se confunde com o bem; que a Verdade não é mero pábulo da curiosidade intelectual, e que só nos deve servir para sermos bons. Que utilidade teriam sistemas, e filosofias, e criticas, se não nos ajudassem a vivermos mais humanamente, e sermos melhores?
     A Verdade adquire, assim, caráter sagrado; não pode, portanto, comparecer, diante de nós, como um réu; mas nós é que devemos buscá-la como à razão de ser da nossa vida; como alguma coisa de sacrossanto, que se procura com amor, com pureza, e com infinito respeito. E como a Verdade se confunde, objetivamente, com o Bem, se queremos um atalho para a luz, comecemos por ser, lealmente, bons. Mas como posso eu, sem conhecer explicitamente a Verdade, saber onde está o bem? Pois por certo instinto da consciência, por um raciocínio que anda implícito na nossa vida, e que até os ignorantes e incultos apreendem, por uma espécie de conaturalidade com o Bem verdadeiro. É isto ser de Deus e ser da Verdade.
     2. Os fariseus rejeitaram a Cristo, porque iludiam o puro instinto do Bem; porque tinham o coração cheio de enigmas e desvãos, e de secretas alianças com o mal. Era isso o que os levava a fixarem-se de preferência nas razões que poderiam ter contra Cristo.
     A Verdade, quase sempre nos aparece com algumas sombras; ou por outra: a revelação de Deus não é necessitante. Nesse caso, porque hei de me fixar, de preferência, nas razões positivas e não nas dificuldades? É porque a isso me inclina o sacrário interior da minha vida; o peso e a delicadeza da minha sinceridade última; o pertencer, por natureza, ao partido do Bem e da Bondade; e o não poder ser perfeitamente bom. Se não ao lado de Deus, entregando-me numa doação de amor total. Se não tiver parcialidade pelo bem, não chegarei à Verdade.

CONCLUSÕES

     1. O Pecado contra a luz. Se tivermos algum empenho ou inclinação subconsciente para fugirmos ás verdades da Fé, então, todas as dificuldades e obscuridades nos servirão de pretexto, e por essas fendas se introduzirão, furtivamente, com a aparência de razões fortes, todas as nossas oposições inconfessáveis. E se tivermos, à raiz mesma do coração e da sinceridade, uma vontade essencial de sermos bons, então, esteremos de acordo com Deus; e todas as objeções admitem uma explicação.
     Mas, por mais bem intencionadas e desapaixonadas que julguemos ser ao nosso ponderar as razões, poderemos sustentar, de ânimo tranquilo, o olhar rigoroso da consciência? teremos a garantia absoluta, de que, nos movimentos mais radiculares da vontade, não houve nenhuma fuga para outros interesses? que tivemos de boa vontade sem liga nem mistura? quer dizer: que fomos santos e não encontramos a luz?
     2. A empresa máxima da vida,  o grande acerto da existência, consiste em que, em nós, o desejo da Verdade coincida com o desejo do bem. Na medida em que não coincidirem, pecamos contra a luz. Quem for sincero com a própria consciência, ouve a voz de Deus, põe-se de acordo com Cristo. po isso, quem é de Deus ouve a Cristo que é de Deus: << O que crê no Filho de Deus, tem o testemunho de Deus em si mesmo>>. E é esse o problema que vai até a raiz do nosso ser, até ao âmago da consciência, enquanto ela é a voz do nosso destino. A conquista da verdade pelo amor sutêntico é a formidável empresa de nossa vida.

sábado, 10 de março de 2018

Meditação para o 4° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O Evangelho da multiplicação dos pães leva-nos, naturalmente, e por indicação de todos os comentadores, a falar da Eucaristia. O mesmo S. João quando relata o milagre, apresenta-o como uma especie de introdução ao sermão eucarístico de Cafarnaum.
     A Eucaristia é, pois, o alimento que Deus dá ao homem que segue a Cristo, o viático reconfortante da alma destinada à Glória da Vida Trinitária. Entre diversos aspectos deste mistério, hoje tomaremos o que parece mais obvio para o tempo da quaresma: a Eucaristia como alimento.

1. A EUCARISTIA É O ALIMENTO DA VIDA SOBRENATURAL...

     1. O processo da nossa vivificação sobrenatural, ou como é que a Eucaristia nos alimenta. Ensinou-o Nosso Senhor no sermão eucarístico que seguiu um dos milagres da multiplicação dos pães: " Assim como meu Pai me enviou, e eu vivo por ele que é a fonte da vida, assim aquele que se alimenta de mim, por mim viverá." (Jo 6,58) . Quer dizer: o Pai que é o princípio da vida, comunica-a ao Filho, unido, hipostaticamente à natureza humana de Cristo. Esta, divinizada intrinsecamente pela vida mesma de Deus, comunica-se ao homem em alimento, transmite-lhe essa mesma vida divina do Pai. Assim como a mãe - a comparação é de Santo Agostinho - assimila os alimentos e os dá depois ao filho pequenino, transformados em leite, assim Cristo recebe em si a divindade que, assimilada pelo seu corpo, já pode agora servir-nos de sustento. Não poderíamos alimentar-nos, diretamente, de Deus, se Cristo o não tivesse posto ao nosso alcance, em sua carne sacrificada.

     2. Como pode divinizar-nos um corpo material? Pode, porque o instrumento, unido à causa superior que o maneja, é elevado na sua ação. Assim, o pincel, quando manejado por um artista, pode realizar um efeito espiritual, que está muito acima da sua própria essência material. De modo parecido: a carne de Cristo, unida à Divindade do Verbo, é elevada, sobrenaturalmente, na sua ação, e pode, transformando-se num alimento divino, realizar o efeito divino da nossa vida sobrenatural.
     Com uma diferença dos outros alimentos. É que estes assimilamo-los nós à nossa própria natureza; mas este, como é tão forte, é ele que nos assimila; como um enxerto que chama a si, para as transformar, as seivas da árvore em que foi garfado. Somos nós que nos divinizamos, e não Deus que se humaniza quando d'ele nos alimentamos.

2. ...QUE SÓ É ASSIMILADO POR QUEM TIVER FÉ E CARIDADE

     1. A Fé. A Eucaristia é o "mysterium fidei" por excelência. Para que se possa assimilar qualquer alimento, é preciso que haja certa proporção entre o alimento e o organismo que o recebe; temos que possuir orgãos capazes de fazerem nosso o que comemos. Há de haver, pois, alguma semelhança prévia entre o organismo e o alimento. Como poderíamos nós assimilar-nos uma pedra? Portanto para fazermos nosso o alimento divino, temos de ser, de algum modo divinos, temos de possuir um organismo sobrenatural. Esse organismo e a graça com seus orgãos, sobretudo a Fé e a Caridade. Assim, o pagão que comungasse, receberia um alimento meramente natural, a carne de Cristo, cuja divindade seria inútil a um organismo meramente humano. Não haveria contato vital com Cristo Deus, mas somente com o Cristo Homem.
     2. Caridade e pureza de vida. A caridade é a vida e a saúde sobrenatural da alma. Como na vida natural, se os orgãos estão paralisados ou entorpecidos, não se faz assimilação - assim, na vida de Deus. O doente que se alimentasse de comidas fortes só se prejudicaria com elas; e a alma que receber a Cristo sem saúde sobrenatural, em vez de se fortalecer, piora: " Quem comer deste pão ou beber deste cálice do senhor indignamente, será réu do corpo e sangue do Senhor" (1 cor 11,27) .

CONCLUSÕES

     1. A Eucaristia requer preparação. O alimento será tanto melhor recebido e assimilado quanto mais no organismo houver vitalidade, saúde e apetite de o receber. Por isso, se não sentimos todos os frutos de vida eterna, que seriam de esperar da Eucaristia, vejamos se não será por falta de preparação e de disposição. S. Luis Gonzaga passava metade da semana a preparar-se, e a outra metade a dar graças. E não era demais. Porque: haverá acontecimento de maior transcendência na nossa vida?
     2. Qual a preparação? Sobretudo a da fé e a do amor. Como é um alimento sobrenatural, tanto mais o apreciaremos quanto o nosso olhar sobrenatural vencer os acidentes exteriores que nos ocultam a Cristo, e nos familiarizar com o mundo de Deus. E para termos, na caridade ardente, o apetite de Deus, procuremos, na pureza da vida, o gosto das coisas do céu, e do mundo sobrenatural. Sejamos como os que seguiam a Cristo no deserto, presos da sua palavra; e sentiremos, então, que a Eucaristia é, verdadeiramente, o pão do nosso espírito.                    

sábado, 3 de março de 2018

Meditação para o 3° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     A perícopa que se lê no evangelho de hoje é muito variada. Conta-nos primeiro a cura do demônio mudo- e daí que se costume falar da confissão neste domingo. Vem, depois, o processo de ruína das recaídas no pecado. E finalmente, diante da doutrina do Mestre, há uma mulherzinha que levanta a voz, de entre multidão, para louvar a Mãe que tal filho deu ao mundo. E o Senhor emenda o elogio, fazendo-se reverter, não tanto para os que tenham boa doutrina, quanto para os que, ouvindo a palavra de Deus, a ponham por obra.
     Todas estas ideias se poderão, talvez, agrupar à volta da noção de católico prático.

1. A CASA DOS SETE DEMÔNIOS

     1. Recair é abusar da graça e da misericórdia. A primeira culpa é fruto da ignorância, da fragilidade e da surpresa. Mas as recaídas, normalmente, já não têm as mesmas desculpas, porque o homem já conhecia, tanto a própria fraqueza como a desilusão que é o pecado. Mas houve uma presunção, ou falsa segurança, de quem julga que pode manter-se imune das ocasiões de perigo; e ao mesmo tempo, um pequeno raciocínio, ofensivo da misericórdia de Deus: "Pequei, e que mal me veio daí?" ( Eccl 5,4) . E como o Senhor disse que perdoaria setenta vezes sete, o pecador anima-se a ofendê-lo mais tarde. É o católico " não praticante", ou a tentativa de servir a dois senhores, e de os enganar a ambos.
     2. Recair é escravizar-se a maus amos. Quando o demônio volta à alma que uma vez pecou, e se arrependeu depois, encontra-a tão nova e regenerada como se acabasse de ser criada. Mas traz, consigo, outros sete espíritos piores que o espíritos da primeira culpa. Sete significa número perfeito; aqui, o poder, em pleno, do mal. É que as recaídas são o forjar de algemas com que a alma trabalha para a sua própria escravidão. Os sete demônios são piores que o primeiro, porque são os maus hábitos que nos acorrentam, junto com as graças de Deus que se desmerecem. Sobretudo em certos pecados, como o da impureza, mau é começar. Perdeu-se o brio e o pundonor da integridade que era uma grande força; depois, já parece que um pouco mais ou um pouco menos não trará grande mal; e adquire-se o pendor ou a facilidade de cair que é a pior das fatalidades.

2. FELIZES DOS QUE OUVEM E GUARDAM

     1. Porque conhecem a Deus e se lhe assemelham. A palavra de Deus é uma segunda encarnação, diz Bossuet, comentando a Origenes e a Santo Agostinho. Porquanto, devendo Cristo mostrar-se a todos os homens, e não o tendo feito na verdade da sua carne, fá-lo na verdade da sua palavra. Com o interesse de Zaqueu, subindo a uma árvore para ver passar a Cristo, procuremos também vê-lo, na pregação dos seus Apóstolos.

     Mas, se além de vermos, guardamos, então, assemelhamo-nos ao Divino Exemplar da nossa Divinização. Cumprir a palavra de Cristo faz-nos parecidos ao Pai do Céu, dá-nos traços e feições de família. De tal modo, que se, por absurdo, a maternidade divina não trouxesse consigo a assimilação moral, cumprir a palavra do Senhor seria parentesco mais íntimo que ser mãe de Deus. Foi o que o Mestre confirmou, no lugar paralelo de S. Matheus: " O que fizer a vontade de meu Pai que está no céu, esse é que é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe." ( Mat 12,50).
     2. Porque o amor liberta. A fidelidade à Lei, quando é adesão amorosa e não simples formalismo, liberta a alma, e renova-lhe o entusiasmo. Praticar, ser dócil à atração do bem maior, é ver e sentir que o senhor é bom e que vale a pena servi-lo. O amor renova-se com as delicadezas da fidelidade e com a experiência das doações generosas. O motivo por que, muitas vezes, se cai na rotina estéril, é porque se para na generosidade. Se tendermos ao bem maior, o amor transforma-se numa conquista insaciável do Sumo Bem, e encontra, em si mesmo, a alegria que o leve a novas ascensões do coração.
     O católico " não praticante" julga que pode abraçar a Deus e ao mundo, e que encontra a liberdade de movimentos na sua situação dúbia. Mas em vão; porque ninguém pode servir a dois senhores, e porque o verdadeiro desafogo conquista-se na fidelidade ao amor.

CONCLUSÕES

     1. O católico " não praticante". Aí, está uma expressão que muitas vezes se ouve, e que não faz grande sentido. Aquele que " não pratica", no mundo atual, é um contra senso, porque as situações extremas tendem a agravar-se, portanto e esclarecer-se. Em tempos apocalípticos como os nossos, o "não praticante", é um absurdo que a lógica da vida rejeita. Mas em qualquer época, pensar de uma maneira e viver de outra, será sempre hipocrisia e falta de caráter, onde quem acaba por sofrer são as ideias, já que a vida é mais forte do que elas. Este ilogismo, prático, esta ausência de sinceridade para com a verdade, é o caminho mais suave e mais certo para a tristeza moral, para o fastio e para a descrença.
     2. Confissão contrita e sincera. O grande remédio para pormos coerência na nossa vida, é a confissão bem feita, porque ela é, também, a grande prova da nossa sinceridade e boas disposições. Fora casos anormais, quem a sério se arrepende, propõe-se, também a sério, fugir das ocasiões de pecado; e, com certeza, melhora a vida. De maneira que, se caímos na indolência para examinarmos as nossas confissões; porque é muito possível que não sejam sinceras, e nos andemos a enganar a nós mesmos e ao confessor - a Deus, não. A confissão, bem persuadida, é primacial obreira de coerência psicológica e de reforma radical.

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Meditação para o 2° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     Um dos maiores cuidados dos homens é o esplendor físico do corpo. Desporto, ginástica, higiene, - quanta solicitude e quanto entusiasmo em valer fisicamente, e em ser bem constituído! Para os Gregos, a elegância, a saúde, a agilidade e a força, eram essenciais para a perfeição humana.
     E tudo isto tem razão de ser. Pois que, sendo nós espírito e matéria, só haverá homem perfeito quando o corpo o for também. O Evangelho da transfiguração, do domingo de hoje, pode até considerar-se, paradoxalmente, neste tempo da Quaresma e da penitência, como o triunfo da carne. Só que o cristão, admitindo o princípio de que devemos ter um corpo perfeito, acrescenta outra verdade e faz mudar a perspectiva de todas estas preocupações: o triunfo do corpo, a plena transfiguração da sua fraqueza, obtém-se mediante a graça. A transfiguração de Cristo é, pois, o penhor e o modelo da nossa transfiguração.

1. A TRANSFIGURAÇÃO DE CRISTO

     1. A humilhação do Verbo Encarnado. Normalmente, Cristo devia ter um corpo glorioso, como mostrou agora a Transfiguração, e como mostrará, depois, na Ressurreição. Mas " apesar de possuir a natureza divina..., aniquilou a sua grandeza, escolhendo a condição de escravo, e aparecendo, como simples homem, entre os outros homens." ( Fil 2,6) . É esta humilhação do Verbo Encarnado, que, se enquanto Deus, se não podia abater, enquanto Deus Encarnado podia tomar a condição de escravo. É fê-lo, por comiseração, solidariedade, zelo e imolação. Vindo, á sua família humana decaída, a reparar uma culpa soberba, a ensinar o caminho da humildade, e a resgatar-nos pela cruz, escolheu, por simpatia conosco, o abatimento e a dor, para que tivéssemos um pontífice compassivo e solidário das nossas misérias, e um Mestre que ensinasse mais com o exemplo do que com palavras..
     2. A transfiguração do Verbo Encarnado. Mas a humilhação era estado violento para Cristo. Porque: possuindo sua alma a visão beatífica, esta não podia deixar de iluminar de glória a sua humanidade de filho de Adão. A luz da Trindade tenderia, necessariamente, a transfigurar o seu corpo divino, como o sol incendeia o cristal em que incide. E a plenitude de vida divina, empolgando a pobre natureza humana, não podia deixar de a sublimar, de a espiritualizar, e de a glorificar; numa palavra: de lhe conferir os dotes do corpo glorioso. A Transfiguração não é, pois, em rigor, nenhum milagre nem nenhum estado extraordinário, mas a volta de Jesus, momentaneamente, à naturalidade da sua condição. É Deus que transparece no homem.

2. A TRANSFIGURAÇÃO DO CRISTÃO

     1. A miséria do homem. O homem tem, por natureza, o que Cristo tinha por livre escolha: sofremos, adoecemos e somos defeituosos, morremos por fim. E é contra esta fatalidade que nos persegue e angustia, que a ciência se lança com todos os seus esforços. Quem conseguirá vencer a dor? Quando aparecerá o homem perfeito?
     Esforços vãos, os da medicina e da indústria humana...Poderá restringir-se o domínio da doença, dilatar-se alguns anos o limite da vida - mas que é isso, senão um excitante mais, para mais sofregamente amarmos a plenitude da vida, e mais sofremos violência de tudo o que a ameaça? A empresa nunca será totalmente eficaz, porque a dor e a morte são consequências do pecado. Portanto o remédio também terá de ser de ordem sobrenatural. A vitória sobre o sofrimento está na Graça de Deus que é vida Divina, imortal e gloriosa.

     2. A transfiguração do homem. "esperamos um salvador que é Nosso Senhor Jesus Cristo, e que reformará o corpo da nossa humildade, configurado pelo corpo da sua glória" ( Fil 3,20) . De modo que a nossa transfiguração não é imediata, mas a demorada empresa da nossa vida, a conquista do sobrenatural, realizada no aferro da esperança, a ao preço das dores corajosamente aceites.
     É demorado e fica longe, mas é total e decisivo: libertamo-nos da miséria do poder do nosso corpo, deificando-nos! podíamos aspirar a mais? E então, quando aparecer realmente o que somos, a glória de Deus será o nosso próprio esplendor, a agilidade e sutileza serão a libertação deste nosso peso morto e matéria, e a impassibilidade nos fará divinamente inacessíveis ao sofrimento!

CONCLUSÕES

     1. A vida naturalista é portanto, a impaciência dos fracos, a desesperada sofreguidão de nos transfigurarmos de qualquer modo, e pelos meios mais à mão. No fundo, é a preguiça da verdadeira superação. E certas doutrinas de filósofos e sábios o que fazem é mascarar os pretextos dessa preguiça dando-lhes aparência de esforço e até de heroísmo. A arte laica tem sido a mais séria tentativa de transfiguração do homem pelos seus próprios recursos. Mas são tudo caminhos inoperantes, desvios e fugas do que é difícil, mas definitivo: "Esperamos um Salvador"
     2. O homem perfeito, neste mundo, pode ser, portanto, aquele que a sociedade rejeita como inútil e indesejável. O leproso, que é arredado para a gafaria, o paralítico, que parece a imagem da inutilidade e do estorvo, até o monstro, que inspira repulsa, todos, se levarem a sua dor, de olhos em Cristo, podem ser, desde já, homens perfeitos. Porque, coisa maravilhosa! Podem possuir, pela graça, o penhor de uma transfiguração muito mais gloriosa do que a daqueles que se ufanam de serem integralmente sãos e sem defeito. A dor e a doença tornam-se, pois, obreiras de beleza física, mediante uma esperança em Cristo: " esperamos um Salvador"

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Meditação para o 1° Domingo da Quaresma

Pe. João Mendes SJ

     O presente domingo tem intima ligação com o anterior. O escândalo da cruz também se aparenta com a tribulação das tentações. Porque não viveremos em paz? Porquê este sentimento de instabilidade angustiosa debaixo dos nossos passos? Porque não serão seguros os caminhos?
     Da mesma forma que temos de sofrer, também temos de ser tentados; porque os sofrimentos e tentações são provas e garantias da nossa verdade interior. Somos sinceros para com Deus? Somos sinceros para conosco mesmos? No perigo se verá. Trata-se pois, duma simples prova, exame que pode e há de servir ao nosso triunfo na glória: " porque eras aceite a Deus, foi necessário que a tentação te provasse." ( Tob 12,18)
     É que, perante a facilidade com que nos iludimos e nos debilitamos, as tentações: ensinam-nos e fortalecem-nos.

1. ENSINAM

     1. Porque a paz ilude-nos sobre o que somos. Quando, na prosperidade tudo corre à medida dos nossos desejos, é tão difícil julgarmo-nos fortes, e atribuir-nos o bom êxito da nossa vida!... Daí que confiemos em nós mesmos, e que entremos a viver com a sensação habitual de segurança e estabilidade que supõem, por outro lado, esquecimento de Deus e da necessidade absoluta que temos d'Ele.
     
Vem a tentação a sacudir-nos a tranquilidade; declara-se uma crise em que tremem os arrimos que escoravam a nossa pretendida suficiência. E eis-nos desamparados, vogando ao acaso, com a revelação patente de todas as infâmias de que somos capazes, com as vertigens de todos os abismos. Aí está o que somos.
     2.A provação esclarece. É neste momento que a tentação nos ensina a orar e a apreciar a graça. Sentindo a nossa debilidade e atração do mal, espontaneamente olharemos para o céu e para Deus, como a criança que a mãe afastou um pouco, para a obrigar a caminhar para si. Saímos da terra firme e da segurança; fomos ao mar, colheu-nos a tempestade. E ao sentir-nos na solidão e na instabilidade das ondas, aprendemos a orar. E fizemos, a grande descoberta de que é pela graça que somos alguma coisa. O resto, ou é temperamento bem inclinado, ou clima moral de circunstâncias favoráveis.

2. FORTALECEM

     1. Porque a paz enfraquece-mos. O costume envilece. A prosperidade sempre bem sucedida, leva, insensivelmente, à rotina, à virtude sem convicção, à indolência moral. E como se insinuam, sutilmente, as impurezas do amor próprio nessa dormência da vontade que depôs as armas!... Como amortece aquela vigilância matutina, e aquele entusiasmo juvenil do querer, que fazem a autenticidade da virtude!...
     Mas lá vem a tentação, colocando o oiro no cadinho, e fazendo cair as escórias de todas as pequenas e grandes sensualidades! O mar agita-se, e as impurezas que por lá andavam, são lançadas à praia, e joeiradas no vai e vem das ondas. Quantas fibras do coração se doem, quando a vida nos sacode, quantos apegos secretos, vindos a lume, revelados nas crises que nos agitam, e obrigam as pequeninas feras a sair do esconderijo!...
     2. A provação enrijece. E então, somos obrigados a combater. Precisamos de fazer apelo a todos os recursos da alma e da graça. Temos de nos levantar a indolência a que nos habituáramos, de entrar na vida dura, que enrijece a vontade. A tempestade, ao passar, fez que a árvore se apegasse mais ao chão, deitando as raízes mais fundo. Formam-se, assim, hábitos de virtude, que são muito diferentes do descanso e da rotina. O hábito não é repouso, é força. Como, antigamente, as cartas de nobreza eram concedidas depois de grandes feitos militares, assim, nas tentações é que se alcançam os hábitos de virtude, que são a aristocracia da vontade, como lhes chamou profundamente um autor católico. As convicções tornam-se muito mais íntimas, porque se arraigam na vida difícil, porque as temos de defender e manter à custa de sangue.

CONCLUSÕES

     1. A tentação é a mortificação que Deus nos manda. Considerávamos, no domingo passado, que tinhamos de tirar prova, pela cruz, da nossa sinceridade moral. E que essa prova era a mortificação, garantia da pureza com que usamos das criaturas e servimos a Deus. Mas o Senhor, por seu lado, manda-nos também outras provas, consentindo que sejamos tentados para mostrarmos o que somos. A tentação é pois, a mortificação que Deus nos manda, como a mortificação é a tentação com que nós examinamos a nós mesmos.
     2. A tentação não são as ocasiões que nós buscamos. O que é preciso é que sejam provas que Deus nos manda, e não ocasiões de pecado, em que nos arriscamos. Porque, essas, já revelam apego à culpa, e supõem, por isso mesmo, que não estamos dispostos a usar das graças que Deus nos concede. Quem vai, indiscriminadamente, a teatros, cinemas e bailes, quem olha para tudo o que é prestígio do mal - como há de manter-se na tentação, se já vai vencido? Como há de resistir à vertigem o que a procura? 


sábado, 10 de fevereiro de 2018

Meditação Para do Domingo da Quinquagésima

Pe João Mendes SJ

     O Evangelho de hoje compreende duas partes que se relacionam, pelo menos simbolicamente: o anúncio da Paixão e a cura do cego. Os Apóstolos não compreenderam; escandalizaram-se com a cruz, foram os primeiros a manifestar aquela cegueira, que é afinal de todos nós, diante da necessidade de sofrer.
     Para ser cristão, é preciso abraçar a dor, ter a coragem de a aceitar no centro mesmo da vida. É esse o caminho para a felicidade autêntica; mas é esse anseio de felicidade que, em nós, se recusa a consentir. Daí, a grande dificuldade, e o círculo fechado em que o homem se debate: a cruz atrai e repele. Atrai, enquanto é custoso aceitar o sofrimento, como o caminho da alegria.
    Peçamos pois, a Cristo que nos ensine a sair desta contradição, abrindo os olhos de nossa cegueira, com um milagre tão grande como o que curou o cego.

1. EM QUE CONSISTE O ESCÂNDALO DA CRUZ

      1.As demasias da renúncia. A cruz, e as repugnâncias que ela levanta em nós, não são. somente, a mortificação do que é imperfeito e pecaminoso. O que já não era pouco, e que seria exigência de uma perfeição laica, teoricamente possível, num pagão. É também, a morte de muito do que é legitimo e bom. Consiste em sofrer mais do que seria preciso para praticar o bem e evitar o mal; o que, aplicado a Cristo, em que ele podia remir o mundo de modo menos cruento. É esse, no fundo, o escândalo dos Apóstolos, perante os sofrimentos do seu Mestre, e é o escândalo dos ímpios perante a dor dos inocentes e a penitência dos justos; - que sofram os pecadores, bem está; mas porque há de sofrer a inocência? porque se há de sofrer em vão?

     2. Necessidade da renúncia.  Temos de aceitar a humildade da nossa natureza, que precisa da flagelação do sofrimento para se purificar. Só é perfeito o que sofre. É certo que nem todo o que padece é puro; mas todo o que é bom teve de sofrer. Eis o escândalo: porque há de andar o bem crucificado?.
    É que o dom da integridade não foi restituído em toda a sua perfeição. Quer dizer: o domínio da alma sobre o corpo, ainda mesmo com o auxílio da graça, não é absoluto. De tal modo que, só com uma ajuda especialíssima, se poderiam evitar as pequenas venialidades. Facilmente se intrometem impurezas, na visão e no uso que temos das coisas. Por isso, para assegurar a pureza das intenções, temos que renunciar a muito do que é legítimo. É toda a tradição da santidade da Igreja, pois em todos os Santos, há sempre alguma coisa de excessivo e de loucura, no rigor com que se mortificam. A mortificação é a prova real da virtude autêntica; e os homens de Deus tem todo o empenho em se assegurarem dela.

2. REPARAÇÃO DO ESCÂNDALO

     1. A Vida Divina. Com o sofrimento, não se perde nada, pelo contrário. Ser cristão é receber uma vida divina em troca da humana, a vida eterna em troca da temporal. É essa a troca, realizada na cruz, que está no começo e à raiz da nossa vida. Quando fomos batizados, perguntou-nos o sacerdote, à porta da Igreja: << E a fé para que te serve? - Dá-me a vida eterna >>, respondemos nós. O cristianismo não pode, pois, deixar de ser uma vontade de eternidade. Pois se o cristão é o mercador que vendeu tudo para comprar a pedra preciosa, como não há de andar absorvido com a sorte ultra-terrena do seu jogo arriscado? E quem o poderá levar ao mal? que fazem os homens que sacrificam a vida pela honra? e pelo amor? e pela vaidade de agradar à galeria?
     2. A vida humana. Mas já nesta vida, e no plano meramente natural, e apesar da renúncia, o mercador da pérola começa a ganhar. Porque o Cristianismo e já uma penetração da eternidade no tempo; e a vida eterna de Deus, mesmo na sombra da fé, já concede ao homem o esboço dos dotes do corpo glorioso. A cruz, abraçada com decisão, resolve muitas das mais difíceis antinomias que preocupam os homens - é ver os Santos! Dá-lhes a alegria na dor, a liberdade na submissão, a segurança no abandono, a riqueza no despojamento, a grandeza na humildade, a autonomia no amor. Tudo isto são extremos, igualmente apetecíveis, que os homens procuram, inclinando-se , ora para um lado ora para o outro, e caindo em todos os excessos. Só a cruz de Cristo concilia as oposições, e harmoniza o irreconciliável.

CONCLUSÕES

     1.Cristo crucificado. Depois que Deus foi pregado numa cruz, e assumiu a dor humana, para transfigurar, já o escândalo do sofrimento da inocência se desvanece. Tudo ganha sentido, tudo se torna solidário. Os que tem culpas e impurezas, sofrem para as reparar e purificar; os que as não tenham, mesmo as crianças, sofrem para reparar as dos outros. Mas já não há sofrimento em vão. Porque toda a dor se pode unir à de Cristo Crucificado, e formar, com ela, a grande obra de solidariedade humana, que é a Redenção da Culpa.
     2. O Cristianismo é, assim, um novo sistema de valores. O cristão, que aceita a realidade da Culpa e da sua redenção pela cruz, aparece no mundo como um louco que construísse o universo à sua maneira. Não concorda com os outros homens, é um estranho que aprecia o que os outros desprezam, e despreza os que os outros apreciam. Troca os bens palpáveis pelos impalpáveis, este mundo pelo outro mundo. Mas só a luz da Fé, penetrada de Caridade, fará que a cruz se nos torne amável e o seu mistério conatural. A grande cegueira, a que nos esconde o mundo sobrenatural, vem das repugnâncias que em nós levanta o dever da renûncia.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Meditação para o Domingo da Sexagésima

Pe João Mendes SJ

     A Palavra de Deus é semente. Como preparação para a pregação da palavra divina, durante o tempo da quaresma, a Igreja lembra-nos esta parábola, que é das mais belas que Jesus pronunciou.
     S. Paulo dirá mais tarde: " Vós sois agricultura de Deus " ( I Cor 3,9) ; porque, de fato, é do céu que vem a semente, e nós somos cultivados por Deus, como a terra é pelo lavrador. Mas o Senhor que a nossa colaboração, quer que o campo reaja com a influência do alto, e faça crescer a "semente de Deus".

1. A PALAVRA DE DEUS É SEMENTE

     1. Semente é um germe de vida. que se lança à terra para produzir frutos semelhantes a essa mesma semente. Assim, do grão de trigo que se lança no sulco das lavras, germinará uma espiga, com grãos de trigo iguais ao primeiro.
     Deus lançou à terra a sua semente que foi o Verbo Encarnado, princípio de vida e Verdade divina para o homem. Ele é o grande princípio, a grande revelação, que transformará as inteligências e dará alentos novos à vontade; e que, na intenção divina, deverá fazer germinar, entre os filhos de Adão, a multidão inumerável dos filhos de Deus, semelhantes a Cristo, seu unigênito por natureza.
     2. A semente de Deus mostrou-se fecundíssima.  Porque transformou as inteligências dos homens do mundo antigo pagão; a visão nova do universo, que o Messias ensinou, no Sermão da Montanha, mudou o apreço das coisas, trocando os princípios de valor. É ver, logo nos primeiros tempos da Igreja; que diferença entre o critério de um sábio grego ou romano, e o dum asceta cristão! E não só transformou as inteligências dos homens e a sua visão do mundo, mas fecundou-lhes as vontades, levando-as  a abraçar as consequências dessa nova luz, dando-lhes força e coragem, com os exemplos e os auxílios do Verbo Encarnado, Mártires, Virgens, Anacoretas, Confessores, Religiosos - semelhantes a Cristo, seara divina nascida da palavra de Deus...- toda a vida de perfeição da Igreja é o fruto desta semente fecundíssima, é a família divina gerada por esta semente de Deus, tudo imagens parciais do Verbo Encarnado, formando um Cristo Total.

2. QUE SUPÕE O TERRENO PREPARADO

     1. Atenção intelectual.  A semente, por si só, não germina, precisa do húmus do terreno onde cai. A agricultura de Deus é como a agricultura dos homens. Por isso, a Semente caída a beira da estrada, ou entre os espinhos, é a Palavra de Deus que não chega a ser ouvida, porque a alma é aberta e dissipada como terreno onde passa toda a gente, ou distraída pelas preocupações deste mundo que sufocam os rebentos do fervor. É preciso atender, pensar, alguma vez, em ouvir a Palavra de Deus, a única que é indispensável ouvir. Sabem-se e estudam-se tantas ninharias... Quando se resolverá o nosso espírito a fugir ao mundo da bagatela?

     2. Colaboração da vontade. intimamente ligada ao que precede, pois, quando a inteligência se aplicar, é porque já a vontade se moveu. Mas a colaboração do nosso querer é, sobretudo, em profundidade: é aquele humor que alimenta as raízes, e que não se encontra nas pedras; é aquela ternura escondida onde pegam bem as insinuações de Deus. Corações duros, impenetráveis ao passo invisível do Amor incriado, nesses, não há semente divina que vingue. A revelação do verbo pega, em nós, nas pequenas e múltiplas radículas afetivas de aceitação e oferta, que prendam, ao nosso coração, o convite do Bem. E nisto que consiste o ser " ex Deo" , da linhagem de Deus.

CONCLUSÕES

     1. Boa vontade. Tenhamos, pois, docilidade, que consiste no desejo de ser ensinado, e na preparação espiritual para o ser - e é esta a docilidade intelectual; e em ter um coração inclinado à luz, de sulcos abertos e revolvidos pela dor, dispostos a aceitar a recolher a palavra verdadeira - e é esta a docilidade da vontade. Que o Senhor nos transforme as entranhas, dando-nos um coração de carne, em vez do coração de pedra da nossa insensibilidade.
     2. Reflexão. O mundo vive na inconsciência e na irreflexão. A demanda da vida divina é, portanto, um ato de atenção que vence o prestígio da bagatela, e se dispõe a ouvir a palavra de Deus. Ser Cristão é interiorizar-se, fugir das aparências materiais, demandando o Deus desconhecido, que atua no silêncio, como as sementes, e na tranquilidade como o fermento.


sábado, 27 de janeiro de 2018

Meditação para o Domingo da Septuagésima

Pe João Mendes SJ

     Parábola dos operários da Vinha. Oferece-nos um sentido histórico, aplicável aos Judeus, e outro universal, relativo aos homens de todos os tempos. O significado da Alegoria, no seu aspecto aparentemente desconcertante, fala-nos duma justiça divina que não se ajusta aos moldes humanos, já que os supera infinitamente.
     Em rigor, ninguém tem direitos diante de Deus; e o Senhor é soberanamente livre na sua ação. De modo particular; a justiça de Deus está acima da justiça dos homens, e temos de aceitar-lhe o mistério.

1- O QUE FAZ O MÉRITO NÃO É O MUITO TEMPO OU ESTADO DE PERFEIÇÃO

     1. Aplicação aos Judeus. O povo escolhido foi chamado, logo na primeira hora, para trabalhar na vinha de Deus. Com ele estabeleceu Jeová a sua aliança, para ele era, antes de todos, o Messias. Só muito mais tarde, foram chamados os gentios, e com os mesmos privilégios dos eleitos da primeira hora. Daí, o escândalo judaico do espírito de casta, que se supunha com direitos diante de Deus, e que pensava em injustiça quando se via igualado com gentes impuras.

     Cristo mostra-lhes, agora, que o Senhor é livre na disposição de seus dons, que não se prende em contatos pequenos, e que sua justiça é mais ampla que os cálculos acanhados dos homens. Diante de Deus, " não há Judeu nem gentio"' - dirá depois S. Paulo ( Col 3,11)
     2. Aplicação a todos os homens. O que faz o mérito não é muito o tempo, nem certa fidelidade, longo tempo mantida. Na velhice ou no último momento, qualquer pecador, como o Bom Ladrão, ou aquele condenado por quem orou Santa Teresinha, pode ouvir o convite de acesso a eternidade. Esta é, substancialmente, a mesma para todos; é uma só a mesa do banquete, porque a glória é a visão da mesma Infinita Perfeição.
     E quanto à capacidade subjetiva de o gozar, quem sabe as surpresas que nos esperam? O poeta Rimboud levou uma bem triste vida de pecado; mas o sacerdote que o confessou, à hora da morte, declarou ter encontrado, poucas vezes, fé tão pura. Não admira, pois, que o Pai do Pródigo faça grande festa, quando chega o filho pecador! O mais velho, o da longa fidelidade, é que não devia estranhá-lo. Quem sabe em qual dos corações havia mais amor?

2. ...E QUEM RETRIBUI É UMA JUSTIÇA QUE SE CONFUNDE COM O AMOR 

     1. A justiça dos homens é cega, para ser igual para todos, porque só premia segundo as aparências. Nunca poderá julgar o íntimo dos corações que lhe são inacessíveis. Para ser perfeita é cega - e nisso está a sua pobreza; tem medo do amor e das suas parcialidades, e por isso, aplica, rigidamente, os princípios da igualdade para todos. Por isso, as leis dos homens são inflexíveis, e escravas da letra, como escravas são também as aparências. E que será, quando não é a justiça, mas a má vontade, o despeito ou o ciúme, quem julga das ações alheias?  Cristo recomendou-nos tanto que não julgássemos... e que seríamos medidos pela medida que usássemos com os outros... É que é muito difícil julgar, com acerto, um coração.
     2. Mas a Justiça de Deus confunde-se com o puro amor. É, portanto uma justiça muito mais misteriosa, desconcertante e clarividente, nas suas decisões. Não admira que a ação da Providência seja tão inacessível, e que brinque com as aparências e os alvedrios. Assim como as mães sabem ver, como ninguém, os méritos dos filhos, assim Deus vê muito melhor do que nós, e com uma clarividência perfeita, todos os desejos de bem que há, ocultos, no coração do maior dos desgraçados. Foi Cristo quem disse aos príncipes dos Sacerdotes e anciãos do povo : " Publicanos e meretrizes entrarão primeiro que vós, no Reino de Deus ..." ( Mt 21,3)
     O mistério da nossa liberdade só é compreensível por Deus, porque essa liberdade é um mistério no homem. E Deus desvenda esse segredo, precisamente, porque sua justiça é iluminada pelo amor. A justiça dos homens é cega, para que o amor não a corrompa; mas a de Deus, pelo contrário, é clarividente, porque olha com os olhos do amor, - e nisso está a sua excelência infinita. Quando, também nós, tivermos de julgar as vidas dos nossos irmãos, amemos o mais que pudermos, os nossos réus, porque, só assim, nos assemelhamos à justiça divina.

CONCLUSÕES

     1. Evitar o desânimo. Mudar na velhice? impossível. Tudo perdido, - Não. Nunca é tarde na vida para nos voltarmos para Deus. Porque só um ato, o da undécima hora, pode resgatar todo o passado, e merecer o mesmo prêmio que os que trabalham o dia inteiro. Sendo a justiça de Deus tão ampla e amorosa, sempre nos ficam motivos de esperança.
     2. Evitar o desleixo. Do fato de os últimos poderem redimir o atraso, com pouco tempo de trabalho, não se segue que quem trabalhar bem todo o dia não tenha mais mérito. Se o vinhateiro sai a contratar operários, logo de manhã, sinal é de que lhe agrada a diligência e se  bom trabalho da undécima hora é tão premiado, isso nos mostra que o bom trabalho das outras o será também. E sendo a justiça de Deus tão misteriosa, por se confundir com o amor, nem por isso a devemos tomar como indulgência transigente; mas temamos sempre, porque essa aliança misteriosa tanto joga a nosso favor como contra nós.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Meditação Para o 3° Domingo Após a Epifania

Pe João Mendes SJ

     O  Evangelho relata a cura de dois doentes, dois milagres alcançados pela Fé, mas por uma fé mais profunda e viva, no segundo que no primeiro caso. O leproso aproxima-se de Jesus e expõe~lhe o seu mal, como uma oração tão simples como eficaz. O Senhor toca-o, e ele fica limpo de toda a lepra.
     Depois vem o centurião, e sem exigir a presença de Jesus, apela somente para o seu poder. E o Senhor realiza o milagre a distância. É que é sobretudo pela fé que Deus se nos torna presente, e que nós recebemos a eficácia do poder divino.

1. A FÉ TORNA-NOS RECEPTIVOS DO PODER DIVINO

     O milagre por contato. O leproso, o intocável, aquele de quem todos fugiam, pode, enfim, prostrar-se diante do homem que é Deus. Este, ao menos, não o teme nem lhe terá horror. Talvez o pobre gafo sentisse demasiada sofreguidão, e era bem natural, da presença física do Taumaturgo, e não discriminasse bem o objeto da sua confiança. Mas cria: "Senhor, se Vós quiserdes, podeis curar-me!". Ainda que a humanidade do Redentor seja instrumento da Divindade, contudo, para esta, formalmente, é que deve ir a nossa crença. A fé diz respeito ao Deus que se esconde e se revela no homem.
     Necessidade da fé. A presença de Cristo ser-nos-ia inútil se não acreditássemos na sua divindade. " Se crês...", " A tua fé te salvou...". E foi também a fé do leproso que o salvou: " Se quiserdes, podeis curar-me. - Quero. Sê Curado!". Muitos viram e ouviram a Cristo, muitos lhe tocaram e foram d'Ele tocados, e ficaram como antes. "Mestre, toda esta gente te aperta e importuna, como dizes que alguém te tocou?". É que entre tantos, era a hemorroíssa quem tinha a fé verdadeira; só essa foi receptiva da ação divina. Em Nazaré, Cristo não praticou milagres. Porque não pudesse? Não, mas porque os seus conterrâneos o tomavam simplesmente como um dos seus, " O Filho do carpinteiro", e não criam no Deus o culto. É como na Eucaristia: o pagão que comungasse, só receberia o alimento material dum corpo humano sacrificado. Assim no convívio de Cristo: se não tivermos fé, Ele será para nós como um homem qualquer.

2. PORQUE É O PRIMEIRO CONTATO COM O MUNDO SOBRENATURAL

     O milagre à distância. O Centurião não requer a presença física de Jesus: "Dizei uma só palavra, e o meu servo será curado". Como se dissesse: há outro modo mais íntimo de Deus aproximar-se dos homens e os homens d'Ele. E Nosso Senhor elogia, entusiasticamente aquela fé que não tinha igual em Israel. E a Igreja tornou as palavras daquele que, ainda há pouco, era simples pagão, para as aplicar ao "misterium fidei" por excelência.
     Contato com Deus pela fé. Não é preciso a presença física de Cristo, porque a crença sobrenatural é já o nosso primeiro contato com o mundo de Deus. A luz da fé não é mais que a própria luz íntima do Senhor, a luz inacessível que ele habita, enquanto comunicada ao homem; é conhecermos, quanto nos é dado agora, os arcanos de Deus, a sua Trindade de Pessoas, mediante a revelação do Verbo Encarnado. Quando, para além do que vêem os olhos e do que vê a razão, a nossa alma adere à realidades sobrenaturais, saimos do mundo das aparências, entramos no mundo de Deus, iluminados diretamente da sua luz, ainda na obscuridade do mundo dos sentidos, mundo dos enigmas e das sombras, mas vendo já, e possuindo, em princípio, a glória divina. " Esta é a vida eterna: que Te conheçam a Ti, único Deus verdadeiro, e aquele que nos enviaste, Cristo Jesus"
     É assim que as almas animadas de fé viva dir-se-ia tocarem no mundo sobrenatural, tê-lo presente, senti-lo e respirá-lo. Por isso, quanto mais fé mais união com Deus e mais caridade. O Centurião estava, talvez, muito mais próximo de Cristo do que o leproso ajoelhado diante d'Ele. O que nos torna presentes ao Salvador, e a Ele presente a nós, é a união que tivermos com Ele, pela Fé e pela Caridade.

CONCLUSÃO

     A presença de Cristo. Quantos de nós, alguma vez, não teremos sentido pena de não ter visto e tocado a Nosso Senhor Jesus Cristo, quando passou na Terra. Mas, pela fé, podemos corrigir o atraso do tempo e a distância do espaço, e sermos mais presentes ao Redentor do que os contemporâneos. Não é a presença corporal o que nos une com Ele e com a sua Divindade, mas o convívio sobrenatural da crença.
     E o Reino dos Céus ainda está suspenso sobre nós, atualmente. A mensagem e a vida de Cristo continuam à espera da nossa adesão, como se o Senhor nos perguntasse também a nós: " E  vós? quem dizeis que eu sou?" Trata-se de um toque assimilador, de fazer descer a vida de Deus. Esse vínculo misterioso, parentesco divino e nó de eternidade, é a Fé.