domingo, 4 de janeiro de 2026

Homilia de Bento XVI na Solenidade da Epifania do Senhor



Queridos irmãos e irmãs,

na Solenidade da Epifania, a Igreja continua a contemplar e a celebrar o mistério do nascimento de Jesus Salvador. Em particular, a recorrência de hoje sublinha a destinação e o significado universais desse nascimento. Fazendo-se homem no ventre de Maria, o Filho de Deus veio não somente para o povo de Israel, representado pelos pastores de Belém, mas também para a humanidade inteira, representada pelos Magos. E é exatamente sobre os Magos e sobre seu caminho na busca do Messias (cf. Mt 2,1-12) que a Igreja nos convida hoje a meditar e rezar. No Evangelho, escutamos que esses, chegando a Jerusalém do Oriente, perguntaram: “Onde está aquele que nasceu, o rei dos Judeus? Vimos despontar a sua estrela e viemos para adorá-lo” (v. 2). Que tipo de pessoas eram, e que espécie de estrela era aquela? Eram, provavelmente, sábios que escrutavam o céu, mas não para buscar “ler” nos astros o futuro, eventualmente para ganhar algum dinheiro; eram, mais que tudo, homens “em busca” de algo mais, em busca da verdadeira luz, que seja capaz de indicar a estrada a percorrer na vida. Eram pessoas convictas de que, na criação, existe aquilo que poderíamos definir como a “marca” de Deus, uma marca que o homem pode e deve tentar descobrir e decifrar. Talvez o melhor modo para conhecer esses Magos e entender o seu desejo de deixar-se guiar pelos sinais de Deus seja determo-nos em considerar aquilo que encontraram, em seu caminho, na grande cidade de Jerusalém.

Antes de tudo, encontraram o rei Herodes. Certamente, ele era interessado no menino de que falavam os Magos; não, no entanto, com o objetivo de adorá-Lo, como desejou dar a entender, mentindo, mas para suprimi-Lo. Herodes é um homem de poder, que no outro consegue ver somente um rival a combater. No fundo, se refletirmos bem, também Deus parece-lhe um rival, antes, um rival particularmente perigoso, que desejaria privar os homens do seu espaço vital, da sua autonomia, do seu poder; um rival que indica a estrada a percorrer na vida e impede, assim, de fazer tudo aquilo que se quer. Herodes escuta de seus especialistas nas Sagradas Escrituras as palavras do profeta Miqueias (5,1), mas o seu único pensamento é o trono. Portanto, Deus mesmo deve ser ofuscado e as pessoas devem ser reduzidas a meras peças a serem movidas no grande tabuleiro do poder. Herodes é um personagem que não nos é simpático e que, instintivamente, julgamos de modo negativo pela sua brutalidade. Mas deveríamos perguntar-nos: talvez haja algo de Herodes também em nós? Talvez também nós, às vezes, vemos Deus como uma espécie de rival? Talvez também nós estejamos cegos diante de seus sinais, surdos às suas palavras, porque pensamos que Ele põe limites na nossa vida e não nos permite dispor da existência a nosso bel-prazer? Queridos irmãos e irmãs, quando vemos Deus desse modo, acabamos sentindo-nos insatisfeitos e descontentes, porque não nos deixamos guiar por Aquele que está no fundamento de todas as coisas. Devemos tolher da nossa mente e do nosso coração a ideia da rivalidade, a ideia de que dar espaço para Deus seja um limite para nós mesmos; devemos abrir-nos à certeza de que Deus é o amor onipotente que não tolhe nada, não ameaça, antes, é o Único capaz de oferecer-nos a possibilidade de viver em plenitude, de provar a verdadeira alegria.

Os Magos, depois, encontram os estudiosos, os teólogos, os especialistas que sabem tudo sobre as Sagradas Escrituras, que conhecem as possíveis interpretações, que são capazes de citar de memória cada trecho e que, portanto, são um precioso auxílio para quem deseja percorrer o caminho de Deus. No entanto, afirma Santo Agostinho, esses amam ser guias para os outros, indicam a estrada, mas não caminham , permanecem imóveis. Para eles, as Escrituras tornam-se uma espécie de atlas para ler com curiosidade, um conjunto de palavras e de conceitos a examinar e sobre o qual discutir doutamente. Mas, novamente, podemos perguntar-nos: não há também em nós a tentação de considerar as Sagradas Escrituras, este tesouro riquíssimo e vital para a fé da Igreja, mais como um objeto para o estudo e discussão dos especialistas que como o Livro que nos indica o caminho para chegar à vida? Penso que, como indiquei na Exortação apostólica Verbum Domini, deveria nascer sempre de novo em nós a disposição profunda de ver a palavra da Bíblia, lida na Tradição viva da Igreja (n. 18), como a verdade que nos diz o que é o homem e como ele pode realizar-se plenamente, a verdade que é a via a se percorrer cotidianamente, juntamente com os outros, se desejamos construir a nossa existência sobre a rocha e não sobre a areia.

E vemos, assim, a estrela. Que tipo de estrela era aquela que os Magos viram e seguiram? Ao longo dos séculos, essa pergunta foi objeto de discussão entre os astrônomos. Keplero, por exemplo, acreditava que se tratasse de uma “nova” ou uma “supernova”, isto é, de uma daquelas estrelas que normalmente emanam uma luz fraca, mas que podem ter improvisadamente uma violenta explosão interna que produz uma luz excepcional. Sim, coisas interessantes, mas que não nos levam ao que é essencial para compreender aquela estrela. Devemos voltar-nos para o fato de que aqueles homens buscavam os traços de Deus; buscavam ler a sua “marca” na criação; sabiam que “os céus narram a glória de Deus” (Sal 19,2); eram convictos, isto é, de que Deus pode ser entrevisto na criação. Mas, por serem sábios, sabiam também que não é com um telescópio qualquer, mas com os olhos profundos da razão em busca do sentido último da realidade e com o desejo motivado pela fé que é possível encontrá-Lo, que se torna possível que Deus se aproxime de nós. O universo não é resultado do acaso, como alguns desejam fazer-nos crer. Contemplando-o, somos convidados a ler algo de profundo: a sabedoria do Criador, a inexaurível criatividade de Deus, o seu infinito amor por nós. Não devemos deixar-nos limitar a mente por teorias que chegam sempre somente até certo ponto e que – se olharmos bem – não estão em concorrência com a fé, mas não chegam a explicar o sentido último da realidade. Na beleza do mundo, no seu mistério, na sua grandeza e na sua racionalidade não podemos deixar de ler a racionalidade eterna, e não podem deixar de guiar-nos ao único Deus, criador do céu e da terra. Se tivermos esse olhar, veremos que Aquele que criou o mundo e Aquele que nasceu em uma gruta em Belém e continua a habitar em meio a nós na Eucaristia é o próprio Deus vivo, que nos interpela, ama-nos, deseja conduzir-nos à vida eterna.

Herodes, os especialistas nas Escrituras, a estrela. No entanto, sigamos o caminho dos magos que chegam a Jerusalém. Sobre a grande cidade, a estrela desaparece, não se vê mais. O que isso significa? Também nesse caso devemos ler o sinal em profundidade. Para aqueles homens, era lógico buscar o novo rei no palácio real, onde encontram-se os sábios conselheiros de corte. Mas, provavelmente com espanto, tiveram que constatar que aquele recém-nascido não se encontrava nos lugares do poder e da cultura, mesmo que lá tenham sido oferecidas preciosas informações sobre Ele. Se deram conta, pelo contrário, que, muitas vezes, o poder, também aquele da consciência, fica no caminho de encontro com aquele Menino. A estrela guiou-lhes então a Belém, uma pequena cidade; guiou-lhes entre os pobres, entre os humildes, para encontrar o Rei do mundo. Os critérios de Deus são diferentes daqueles dos homens; Deus não se manifesta no poder deste mundo, mas na humildade do seu amor, aquele amor que requer a nossa liberdade de ser acolhido para transformar-nos e tornar-nos capazes de chegar Àquele que é o Amor. Mas também para nós as coisas não são assim tão diferentes de como eram para os Magos. Se fosse pedido o nosso parecer sobre como Deus deveria salvar o mundo, talvez responderíamos que devesse manifestar todo o seu poder para dar ao mundo um sistema econômico mais justo, em que todos pudessem ter tudo aquilo que desejassem. Na realidade, isso seria uma espécie de violência contra o homem, porque o privaria de elementos fundamentais que o caracterizam. Com efeito, não seriam chamados em causa a nossa liberdade, nem o nosso amor. O poder de Deus manifesta-se de modo completamente diferente: em Belém, onde encontramos a aparente impotência do seu amor. E é para lá que nós devemos andar, e é lá que re-encontraremos a estrela de Deus.

Assim aparece-nos bem claro um último elemento importante do acontecimento dos Magos: a linguagem do criado permite-nos percorrer um bom trecho da estrada rumo a Deus, mas não nos dá a luz definitiva. No final, para os Magos, foi indispensável escutar a voz das Sagradas Escrituras: somente essas podiam indicar o seu caminho. É a Palavra de Deus a verdadeira estrela que, na incerteza dos discursos humanos, oferece-nos o imenso esplendor da verdade divina. Queridos irmãos e irmãs, deixemo-nos guiar pela estrela, que é a Palavra de Deus, sigamo-la na nossa vida, caminhando com a Igreja, onde a palavra montou sua tenda. A nossa estrada será sempre iluminada por uma luz que nenhum outro sinal pode nos dar. E poderemos, também nós, tornar-nos estrelas para os outros, reflexo daquela luz que Cristo fez resplandecer sobre nós. Amém!

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

Feliz Ano Novo! Salve Maria!

 



Consagração a Nossa Senhora

Ó Senhora minha, ó minha Mãe, eu me ofereço todo a vós. E, em prova da minha devoção para convosco, vos consagro neste dia/nesta noite os meus olhos, os meus ouvidos, a minha boca, o meu coração e inteiramente todo o meu ser. E, porque assim sou vosso, ó incomparável Mãe, guardai-me e defendei-me como coisa e propriedade vossa. Lembrai-vos de que vos pertenço, terna Mãe, Senhora nossa, guardai-me e defendei-me como coisa própria vossa, Amen.




quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

31 de Dezembro: Rezar o “Te Deum”

Um tradicional exercício de piedade popular no último dia do ano é rezar a oração “Te Deum”, um hino de ação de graças por todos os benefícios recebidos.



Na maioria dos países do Ocidente, neste dia, celebra-se o encerramento do ano civil. O acontecimento leva os fiéis a refletirem sobre o “mistério do tempo”, que corre veloz e inexorável. Isso provoca no seu espírito duplo sentimento: de arrependimento e de pesar pelas culpas e ocasiões de graça perdidas ao longo do ano que chega ao fim; e de gratidão pelos benefícios recebidos do Senhor.

Esta atitude deu origem ao costume de entoar festivamente o hino do Te Deum em ação de graças a Deus pelo ano que se finda.

/>Baixar o texto do Te Deum em Português e Latim (pdf), ou veja abaixo o texto em Português ou Latim.

Oferecemos a seguir alguns pontos de meditação sobre este hino que os cristãos rezam desde o século IV:

São Josemaria


É muito grato a Deus o reconhecimento pela sua bondade que denota recitar um Te Deum de ação de graças, sempre que ocorre algum acontecimento um pouco extraordinário, sem dar importância a que seja - como o chama o mundo - favorável ou adverso: porque, vindo das suas mãos de Pai, mesmo que o golpe de cinzel fira a carne, é também uma prova de Amor, que tira as nossas arestas para nos aproximar da perfeição.

Forja, 609

Papa Francisco

A Igreja em muitas ocasiões sente a alegria e o dever de elevar o seu cântico a Deus com estas palavras de louvor, que desde o quarto século acompanham a oração nos momentos importantes do seu peregrinar terreno. É a alegria do agradecimento que quase espontaneamente promana da nossa oração, para reconhecer a presença amorosa de Deus nos acontecimentos da nossa história. Ela tem necessidade de se reforçar com a companhia de todo o povo de Deus, que em uníssono faz sentir o seu cântico de agradecimento. Por isso, no Te Deum pedimos a ajuda aos Anjos, aos Profetas e a toda a criação para louvar ao Senhor. Com este hino percorremos de novo a história da salvação na qual, por um misterioso desígnio de Deus, encontram lugar e síntese também as várias vicissitudes da nossa vida deste ano que está a findar.

31/12/2015

Bento XVI

O Te Deum que elevamos ao Senhor esta tarde, no final de um ano solar, é um hino de ação de graças que inicia com o louvor — “Nós vos louvamos, ó Deus, nós vos proclamamos Senhor” — termina com uma profissão de fé — “Vós sois a nossa esperança, não seremos eternamente confusos”. Qualquer que tenha sido o andamento do ano, fácil ou difícil, estéril ou rico de frutos, nós damos graças a Deus. Com efeito, no Te Deum está contida uma sabedoria profunda, aquela sabedoria que nos leva a dizer que, apesar de tudo, existe o bem no mundo, e este bem está destinado a vencer graças a Deus, o Deus de Jesus Cristo encarnado, morto e ressuscitado.

Sem dúvida, às vezes é difícil compreender esta realidade profunda, uma vez que o mal faz mais ruído do que o bem; um homicídio atroz, violências difundidas e graves injustiças fazem notícia; ao contrário, os gestos de amor e de serviço, o cansaço cotidiano suportado com fidelidade e paciência permanecem muitas vezes na sombra, não sobressaem. Também por este motivo, não podemos deter-nos apenas nas notícias, se quisermos compreender o mundo e a vida; devemos ser capazes de parar no silêncio, na meditação, na reflexão calma e prolongada; devemos saber parar para pensar. Deste modo, a nossa alma pode encontrar a cura para as inevitáveis feridas da vida diária, pode penetrar profundamente nos acontecimentos que se verificam na nossa vida e no mundo, e chegar àquela sabedoria que permite avaliar as coisas com um novo olhar. Sobretudo no recolhimento da consciência, onde Deus nos fala, aprendemos a considerar verdadeiramente as nossas próprias ações e também o mal presente em nós e ao nosso redor, para empreender um caminho de conversão que nos torne mais sábios e melhores, mais capazes de gerar solidariedade e comunhão, de vencer o mal com o bem.

31/12/2012

São João Paulo II

Te Deum laudamus! Sim, louvamos-te, ó Pai, Senhor do céu e da terra. Agradecemos-te porque enviaste o teu Filho, que se fez um pequeno Menino, para dar plenitude ao tempo. Isto foi do teu agrado (cf. Mt 11, 25-26). Nele, teu Filho unigênito, Tu abriste para a humanidade o caminho da salvação eterna.

Elevamos a ti a nossa solene ação de graças pelos inúmeros benefícios que concedeste ao longo deste ano. Louvamos-te e damos-te graças, juntamente com Maria, "que ofereceu ao mundo o Autor da Vida" (Antíf. lit.).

31/12/2003

Te Deum em Português

1. A Vós, ó Deus, louvamos; a Vós, Senhor, bendizemos.
2. A Vós, ó eterno Pai, adora toda a terra.
3. A Vós, todos os Anjos, os Céus e todas as Potestades. A Vós, os Querubins e Serafins proclamam com incessantes vozes:
4. Santo, Santo, Santo, sois Vós, Senhor, Deus dos exércitos!
5. Cheios estão os céus e a terra da majestade da vossa glória.
6. A Vós, o glorioso coro dos Apóstolos, a Vós, o louvável número dos Profetas, a Vós vos louva o brilhante exército dos Mártires.
7. A Vós confessa a Santa Igreja por toda a redondeza da terra.
8. Pai de imensa majestade, ao vosso adorável Filho, verdadeiro e único e também ao Espírito Santo Consolador.
9. Vós, ó Cristo, sois o Rei da glória. Vós sois o Filho eterno do Pai.
10. Vós, para libertar o homem cuja carne havíeis de tomar, não rejeitastes o seio da Virgem.
11. Vós, vencido o aguilhão da morte, abristes aos fiéis o Reino dos céus.
12. Vós estais sentado à mão direita de Deus, na glória do Pai.
13. Cremos que haveis de vir como Juiz.
O seguinte versículo diz-se de joelhos:
14. Por isso Vos rogamos: socorrei os vossos servos, que remistes com o vosso precioso Sangue.
15. Permiti que sejamos do número dos vossos Santos na glória eterna.
16. Salvai, Senhor, o vosso povo, e abençoai a vossa herança.
17. Governai-os e exaltai-os eternamente.
18. Todos os dias vos bendizemos. E louvamos sempre o vosso Nome, por todos os séculos dos séculos.
19. Dignai-Vos, Senhor, preservar-nos neste dia de todo o pecado.
20. Tende piedade de nós, Senhor; tende piedade de nós.
21. Faça-se, Senhor, a vossa misericórdia sobre nós, conforme esperamos em Vós.
22. Em Vós, Senhor, esperei; não serei confundido eternamente.
V/. Bendito sois, Senhor, Deus de nossos pais!
R/. E digno de louvor e glorioso eternamente.
V/. Bendigamos ao Pai, e o Filho, e o Espírito Santo.
R/. Louvemos e por todos os séculos O exaltemos.
V/. Bendito sois, Senhor, Deus, no firmamento do céu.
R/. Louvável, glorioso e soberanamente exaltado por todos os séculos.
V/. Senhor, ouvi a minha oração.
R/. E chegue até Vós o meu clamor.

Oração
Ó Deus, cuja misericórdia é sem limite e cuja bondade é um tesouro inesgotável, prostrados ante a vossa piíssima Majestade, nós Vos rendemos graças pelos benefícios que nos haveis feito, suplicando sempre a vossa clemência, para que não desampareis nunca aqueles a quem concedestes o que vos pediram, e os disponhais para receber os prêmios eternos.
Por Nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, na unidade do Espírito Santo.
R/. Amém.

Te Deum em Latim

Te Deum laudámus: te Dóminum confitémur.
Te æternum Patrem omnis terra venerátur.
Tibi omnes Angeli, tibi cæli et univérsæ potestátes;
Tibi Chérubim et Séraphim incessábili voce proclámant:
Sanctus, Sanctus, Sanctus Dóminus Deus Sábaoth.
Pleni sunt cæli et terra maiestátis glóriæ tuæ.
Te gloriósus Apostolórum chorus, Te Prophetárum laudábilis númerus, Te Mártyrum candidátus laudat exércitus.
Te per orbem terrárum sancta confitétur Ecclésia.
Patrem imménsæ maiestátis; Venerándum tuum verum et únicum Fílium; Sanctum quoque Paráclitum Spíritum.
Tu, Rex glóriæ, Christe, Tu Patris sempiternus es Fílius.
Tu, ad liberándum susceptúrus hóminem, non horruíste Vírginis úterum.
Tu, devícto mortis acúleo, aperuísti credéntibus regna cælórum.
Tu ad déxteram Dei sedes in glória Pátris.
Iudex créderis esse ventúrus.
[genuflexit]
Te ergo quaésumus tuis fámulis súbveni, quos pretioso sánguine redemísti.
Ætérna fac cum Sanctis tuis in glória numerári.
Salvum fac pópulum tuum, Dómine, et bénedic hæreditáti tuæ.
Et rege eos, et extólle illos usque in ætérnum.
Per síngulos dies benedícimos te. Et laudámus nomem tuum in saéculum, et in saéculum saéculi.
Dignare, Dómine, die isto sine peccáto nos custodire.
Miseréri nostri, Dómine, miserére nostri.
Fiat misericórdia tua, Dómine, super nos, quæmadmodum sperávimus in te.
In te, Dómine, sperávi: non confúndar in ætérnum.

V/. Benedicámus Patrem, et Filium, cum Sancto Spíritu.
R/. Laudémus, et superexaltémus eum in sæcula.

V/. Benedíctus es, Dómine, in firmaménto cæli.
R/. Et laudábilis, et gloriósus, et superexaltátus in sæcula.

V/. Dómine, exáudi oratiónem meam.
R/. Et clamor meus ad te véniat.

Orémus:

Deus, cuius misericórdiæ non est númerus, et boni- tátis infinítus est thesáurus; piíssimæ Maiestáti tuæ pro collá- tis donis grátias ágimus, tuam semper cleméntiam exorántes; ut, qui peténtibus postuláta concédis, eósdem non déserens, ad præmia futúra dispónas. Per Christum Dóminum nostrum. Amen.

Jesus Cristo tem feito e padecido tudo por nosso amor

Fonte: Rumo à Santidade





Meditação para a Tarde do último dia do ano

Dilexit me, et tradidit semetipsum pro me – “Ele me amou, e se entregou a si mesmo por mim” (Gl 2, 20)

I. Se é verdade, ó meu Jesus, que por meu amor abraçastes uma vida penosa e uma morte amargosa, posso dizer com razão, que a vossa morte é minha, que são minhas as vossas dores, meus os vossos merecimentos, que, em suma,Vós mesmo sois meu, já que por meu amor Vos entregastes a tão grandes padecimentos. Ah, meu Jesus! Nada me aflige tanto como o pensar que houve um tempo em que Vós éreis meu, e eu voluntariamente Vos tenho perdido repetidas vezes. Perdoai-me e estreitai-me ao vosso peito, nem permitais que eu ainda torne a ofender-Vos. Amo-Vos de toda a minha alma. Vós quereis ser todo meu, eu quero ser todo vosso.

O Filho de Deus, por ser Deus verdadeiro, é infinitamente feliz. Contudo, observa Santo Tomás, Ele tem feito e padecido tanto por amor do homem, como se sem este não pudesse ser feliz: quasi sine ipso beatus esse non posset. Se Jesus Cristo, durante a sua vida terrestre, tivera de merecer a eterna bem-aventurança para si mesmo, que é que mais pudera fazer do que carregar-se de todas as nossas fraquezas, tomar sobre si todas as nossas misérias, para depois terminar a vida com uma morte tão dura e ignominiosa? Mas Jesus era inocente, santo e bem-aventurado em si mesmo; tudo quanto tem feito e padecido, tem-no feito a fim de merecer para nós a graça divina e o paraíso perdido. — Desgraçado de quem não Vos ama, ó Jesus meu, e não vive abrasado no amor de tão grande bondade!

II. Se Jesus Cristo nos houvera permitido, que lhe pedíssemos as provas mais manifestas do seu amor, quem jamais se teria animado a pedir-lhe, se fizesse criança semelhante às outras crianças, abraçasse todas as nossas misérias, se fizesse entre os homens, o mais pobre, o mais desprezado, o mais mal tratado, até morrer à força de tormentos sobre um lenho infame, amaldiçoado e abandonado de todos, mesmo do seu próprio Pai? Mas o que não nos animaríamos nem sequer a imaginar, Jesus o excogitou e fez.

Ó meu amado Redentor, peço-Vos que me concedais a graça, que para mim merecestes com a vossa morte. Amo-Vos e pesa-me de Vos ter ofendido. Tomai posse da minha alma; não quero que ela continue em poder do demônio. Quero que ela seja toda vossa, já que Vós a comprastes com o vosso sangue. Vós me amais a mim e eu quero só amar a Vós. Preservai-me do castigo de viver sem o vosso amor, e pelo mais castigai-me como quiserdes. Maria, meu refúgio, a morte de Jesus e a vossa intercessão são a minha esperança.

Santo Afonso Maria de Ligório

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

SOLENIDADE DO NATAL DO SENHOR - HOMILIA DO SANTO PADRE BENTO XVI

Basílica Vaticana
25 de Dezembro de 2007


Amados irmãos e irmãs,

«Chegou o dia de Maria dar à luz, e teve o seu filho primogénito. Envolveu-O em panos e recostou-O numa manjedoura, por não terem lugar na hospedaria» (cf. Lc 2, 6-7). Estas frases não cessam de tocar os nossos corações. Chegou o momento que o Anjo tinha preanunciado em Nazaré: «Hás-de dar à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e chamar-Se-á Filho do Altíssimo» (cf. Lc 1, 31-32). Chegou o momento que Israel aguardava há muitos séculos, durante tantas horas sombrias – o momento de algum modo esperado por toda a humanidade, ainda que sob figuras confusas: que Deus viesse cuidar de nós, que saísse do seu esconderijo, que o mundo fosse salvo e tudo se renovasse. Podemos imaginar com quanto cuidado interior, com quanto amor Se preparou Maria para aquela hora. A breve anotação «envolveu-O em panos» deixa-nos intuir algo da santa alegria e do zelo silencioso de tal preparação. Estavam prontos os panos, para que o Menino pudesse ser bem acolhido. Na hospedaria, porém, não havia lugar. De algum modo a humanidade espera Deus, a sua proximidade. Mas quando chega o momento, não tem lugar para Ele. Está tão ocupada consigo mesma, sente necessidade tão imperiosa de todo o espaço e de todo o tempo para as próprias coisas, que não resta nada para o outro: para o próximo, para o pobre, para Deus. E quanto mais ricos se tornam os homens, tanto mais preenchem tudo de si mesmos. Tanto menos pode entrar o outro.

João, no seu Evangelho, fixando-se no essencial, aprofundou a breve notícia de São Lucas sobre a situação de Belém: «Veio para o que era Seu, e os Seus não O acolheram» (1, 11). Isto aplica-se antes de mais a Belém: o Filho de David vem à sua cidade, mas tem de nascer num curral, porque, na hospedaria, não há lugar para Ele. Aplica-se depois a Israel: o enviado chega junto dos Seus, mas não O querem. Na realidade aplica-se à humanidade inteira: Aquele por Quem o mundo foi feito, o Verbo criador primordial entra no mundo, mas não é ouvido, não é acolhido.

Em última análise, estas palavras aplicam-se a nós, a cada individuo e à sociedade no seu todo. Temos nós tempo para o próximo que necessita da nossa, da minha palavra, do meu afecto? Para o doente que precisa de ajuda? Para o prófugo ou o refugiado que procura asilo? Temos nós tempo e espaço para Deus? Pode Ele entrar na nossa vida? Encontra um espaço em nós, ou temos todos os espaços do nosso pensamento, da nossa acção, da nossa vida ocupados para nós mesmos?

Graças a Deus, a notícia negativa não é a única, nem a última que encontramos no Evangelho. Tal como encontramos em Lucas o amor de Maria, a mãe, e a fidelidade de São José, a vigilância dos pastores e a sua grande alegria, tal como encontramos em Mateus a visita dos doutos Magos, vindos de longe, assim também João nos diz: «Mas, a quantos O receberam, deu-lhes poder de se tornarem filhos de Deus» (Jo 1, 12). Existem aqueles que O acolhem e deste modo, a começar do curral, do exterior, cresce silenciosamente a nova casa, a nova cidade, o novo mundo. A mensagem de Natal leva-nos a reconhecer a escuridão dum mundo fechado, e deste modo clarifica sem dúvida uma realidade que vemos diariamente. Mas isto diz-nos também que Deus não Se deixa fechar fora. Ele encontra um espaço, entrando nem que seja para o curral; existem homens que vêem a sua luz e a transmitem. Através da palavra do Evangelho, o Anjo fala-nos também a nós, e, na liturgia sagrada, a luz do Redentor entra na nossa vida. Quer sejamos pastores quer sejamos sábios, a luz e a sua mensagem convida-nos para nos pormos a caminho, sairmos da mesquinhez dos nossos desejos e interesses a fim de irmos ao encontro do Senhor e adorá-Lo. Adoramo-Lo abrindo o mundo à verdade, ao bem, a Cristo, ao serviço de quantos vivem marginalizados e nos quais Ele nos espera.

Nalgumas representações natalícias da Baixa Idade Média e princípios da Idade Moderna, o curral aparece como um palácio arruinado. Ainda se pode reconhecer a grandeza de outrora, mas agora foi à ruína, as paredes caíram: tornou-se, isso mesmo, um curral. Embora não tendo qualquer base histórica, esta interpretação, no seu aspecto metafórico, exprime contudo algo da verdade que se encerra no mistério do Natal. O trono de David, para o qual estava prometida uma duração eterna, encontra-se vazio. Outros dominam sobre a Terra Santa. José, o descendente de David, é um simples artesão; na realidade, o palácio tornou-se uma cabana. O próprio David começara por ser pastor. Quando Samuel o procurou para a unção, parecia impossível e absurdo que semelhante jovem-pastor pudesse tornar-se o portador da promessa de Israel. No curral de Belém, lá precisamente onde se verificara o ponto de partida, recomeça a realeza davídica de maneira nova: naquele Menino envolvido em panos e recostado numa manjedoura. O novo trono, donde este David atrairá a Si o mundo, é a Cruz. O novo trono – a Cruz – é o termo correlativo ao novo início no curral. Mas é assim mesmo que se constrói o verdadeiro palácio davídico, a verdadeira realeza. Este novo palácio é muito diverso do modo como os homens imaginam um palácio e o poder real: é a comunidade daqueles que se deixam atrair pelo amor de Cristo e, com Ele, se tornam um só corpo, uma humanidade nova. O poder que provém da Cruz, o poder da bondade que se dá: tal é a verdadeira realeza. O curral torna-se palácio: é precisamente a partir deste início que Jesus edifica a grande comunidade nova, cuja palavra-chave os Anjos cantam na hora do seu nascimento: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama», ou seja, homens que depõem a sua vontade na d’Ele, tornando-se assim homens de Deus, homens novos, mundo novo.

Gregório de Nissa, nas suas homilias natalícias, desenvolveu a mesma ideia a partir da mensagem de Natal do Evangelho de João: «Levantou a sua tenda no meio de nós» (Jo 1, 14). Gregório aplica esta imagem da tenda ao nosso corpo, que ficou como tenda consumida e frágil; exposto por todo o lado à dor e ao sofrimento. E aplica-a ao universo inteiro lacerado e desfigurado pelo pecado. E que diria ele, se tivesse visto as condições em que hoje se encontra a terra por causa do abuso das energias e da sua exploração egoísta e sem respeito algum? Uma vez, de maneira quase profética, Anselmo de Cantuária descreveu antecipadamente aquilo que vemos hoje num mundo inquinado e ameaçado no seu futuro: «Tudo estava como que morto, tinha perdido a dignidade para que tinha sido feito, ou seja, para servir aqueles que louvam a Deus. Os elementos do mundo estavam oprimidos, tinham perdido o seu esplendor por causa do abuso de quantos os tornavam servos dos seus ídolos, para o quais não tinham sido criados» (PL 158, 955s). Assim, retomando a perspectiva de Gregório, o curral na mensagem de Natal representa a terra maltratada. Cristo não reconstrói um palácio qualquer. Veio para restituir à criação, ao universo a sua beleza e dignidade: é isto que tem início no Natal e faz rejubilar os Anjos. A terra é posta de novo em ordem pelo facto de ser aberta a Deus, de obter novamente a sua verdadeira luz, e, na sintonia entre querer humano e querer divino, na unificação das alturas com a realidade cá de baixo, recupera a sua beleza, a sua dignidade. Deste modo, o Natal é uma festa da criação reconstruída. É a partir deste contexto que os Padres interpretam o canto dos Anjos na Noite santa: é a expressão da alegria pelo facto de as alturas e a realidade cá de baixo, céu e terra se encontrarem novamente unidos; de o homem estar de novo unido a Deus. Segundo os Padres, faz parte do canto natalício dos Anjos que, agora, Anjos e homens possam cantar juntos e que, deste modo, a beleza do universo se exprima na beleza do canto de louvor. O canto litúrgico – sempre segundo os Padres – possui uma dignidade própria particular pelo facto de ser um cantar juntamente com os coros celestes. É o encontro com Jesus Cristo que nos torna capazes de ouvir o canto dos Anjos, criando assim a verdadeira música que decai quando perdemos este “cantar-com” e “ouvir-com”.

No curral de Belém, tocam-se céu e terra. O céu veio à terra. Por isso, de lá emana uma luz para todos os tempos; por isso lá se acende a alegria; por isso lá nasce o canto. Quero, no termo da nossa meditação natalícia, citar uma singular afirmação de Santo Agostinho. Ao interpretar a invocação da Oração do Senhor «Pai Nosso que estais nos céus», ele interroga-se: O que é isto, o céu? E onde é o céu? Segue-se uma resposta surpreendente: «…que estais nos céus – isto significa: nos santos e nos justos. Temos, é verdade, os céus, os corpos mais elevados do universo, mas sempre corpos são, os quais não podem estar senão num lugar. Na realidade, se se acreditasse que o lugar de Deus seria nos céus enquanto as partes mais altas do mundo, então as aves seriam mais felizardas do que nós, porque viveriam mais perto de Deus. Ora não está escrito: “O Senhor está perto de quantos habitam nas alturas ou nas montanhas”, mas sim “O Senhor está perto dos contritos de coração” (Sal 34/33, 19), expressão esta que se refere à humildade. Do mesmo modo que o pecador é chamado “terra”, por contraposição também o justo pode ser chamado “céu”» (Serm. in monte II 5, 17). O céu não pertence à geografia do espaço, mas à geografia do coração. E o coração de Deus, na Noite santa, inclinou-Se até ao curral: a humildade de Deus é o céu. E se formos ao encontro desta humildade, então tocamos o céu. Então a própria terra se torna nova. Com a humildade dos pastores, ponhamo-nos a caminho, nesta Noite santa, até junto do Menino no curral! Toquemos a humildade de Deus, o coração de Deus! Então a sua alegria tocar-nos-á a nós e tornará mais luminoso o mundo. Amen.


Um Santo e Feliz Natal à todos!